sábado, 13 de junho de 2009

"Inesquecibilidade..."


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Um trabalho Científico necessariamente termina em uma Conclusão. Uma Dissertação de Mestrado assim também o necessita.
Entretanto, ao longo do tempo, tem havido uma desnecessária Confusão entre Conclusão e Epilógos, que seria o Apogeu da Razão contida na obra.
Abriu-se mão da antiga Epifania. Esta, cuja signifcação acabou modifcada ou mesmo mutilada, ao longo do tempo, vinha sugeria o Apogeu do Sentimento ou da Emoção, que um trabalho provoca.
Em minha Dissertação de Mestrado, lancei mão da necessária Conclusão - Epilogos, mas não abri mão da Conclusão - Epifania.
Abaixo, ela aparece.
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CAPÍTULO 10 - EPIFANIA
Inesquecibilidade...

“Acho que já estou chegando aos finalmente...”
Última frase de Odorico Paraguassu - “O Bem-Amado” - Dias Gomes

Uma sublime composição dos ilustres Vinicius de Moraes e Tom Jobim é “Carta ao Tom”. Nela aparece:
“Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando pra Elizete
as canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz,
ai que saudade,
Ipanema era só felicidade
Era como se o Amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
este Rio de Amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo,
só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o Amor

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador
Minha janela não passa de um quadrado
A gente só vê cimento armado
Onde antes se via o Redentor
É meu amigo só resta uma certeza
É preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso Amor...”

Esta composição remete a um contraste profundo entre um passado de uma localidade e sua atualidade, desmoralizada, enfeiada, estupidificada, caricata. Isto pela deformação em que as paisagens naturais são furtadas às vistas do narrador, devido à presença de edificações antrópicas.
Não temos como não contemplar nosso em-torno.
Vai pelas ruas da Cidade do Salvador, ao seu espírito que adeja, o seguir no vento calmo que a memória comporta, um tênue deslizar para além das nossas cotidianidades. Eleva-se um sentimento de inequívoca contemplação no perceber do palpitar, sob este asfalto cinza-pó, dos silentes trilhos sobre os quais movia-se a vida em manhãs não tão longe idas. Fluiam bondes, de balanços e sons que não mais reconhecemos, amealhando e distribuindo existências de olhares que não mais aqui estão, passeando por edificações, praças e árvores tão outras, de um passado retinto. Sob estes pisos que percorremos céleres nas tantas Praças da Sé do agora, antepassados ainda sonham suas e nossas labutas, razões, emoções, coisidades, memórias e esquecimentos. Sorriem, em laivos de momentos, em sobressalto, quando emergem homenagens fragmentárias, localizadas, que não passam do mero toque das suas vidas num segundo. E resgata-se uma baía bela, de saveiros, redes, naus, charéus, de Todos os Santos.
Bahia Baía desde os primeiros aguares. Baía Bahia desde os primevos passares de índios despidos, neste chão acolhidos por barros vermelhos, águas azuis e areias brancas. Límpidas em grãos às faixas e aos montes, em poesia abraçada ao vento. Dunas de obra e moldura, lançando olhares às primeiras velas que vêm dos mares.
Dunas que Gabriel Soares de Souza (1587) anotou terem sido guia e chama.
Dunas que impõe, nas cartas de marear, os Lençóis de Areia. Sussurro de suave poesia em grãos, que eram à entrada da Bahia.
Dunas de cartas e diários, cantando o frei Manuel da Paixão e Dores (in Peixoto, 1946), suave elegia irresistível. “Mi Amigo. Teremos lleado a la Bahia, mire usted por mi oculo los lençoles.”
Dunas que viajante, emergindo vital beleza, convidaram, como François Payard (1615, in Peixoto, 1946), a remeter amplidão: “Começamos a ver a Terra do Brasil que é muito branca e parecia lençóis e panos que se secam, ou bem neve, razão porque os portugueses a chamam Terra dos Lençóis.”
Aí, no Mar já não mais Tenebroso, já nem tanto desconhecido, o acenar da nossa terra em uma prece de cuidado pelos recifes próximos. Atualmente, atravessa-se, ao chegar ao Aeroporto de Salvador, o portal encantado de bambus, marcando simbolicamente, com grande beleza, a chegada à Cidade da Bahia. No passado, portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses, franceses, italianos, eram recebidos por nossas dunas, antes de aspirar o cheiro dengoso de dendê. Dentes brancos em sorrisos de chegada. Lenços brancos da serena despedida.
À véspera da entrada à Baía de Todos os Santos, um belo areal se encaixava continente entre as últimas águas, que venciam os recifes, e os altos verdejantes do Ypiranga e do Gavazza. Curvada após a Ponta do Padrão, a vida adentrava a Bahia, de elevado paredão e raras praias. Bahia tão difícil recuperar quanto a visão de um coqueiral a partir dos poucos coqueiros sitiados em miseráveis quadrículas, por um mar de concreto, asfalto, esquecimento e omissão.
É um passado que, permanecendo no encanto, morre ainda hoje, quando sepultamos o antigo Rio dos Seixos, que ainda corre, em seus últimos momentos, pelo vale do antigo Caminho do Calabar, atual Avenida Centenário. Visto com os olhos do sentimento, ali está um bahiano, assim, com “h” mesmo, mestiço, com cabelos e barbas brancas. Suas águas são, agora, lágrima a fluir no último passo de morte da memória.
Restará, talvez, como na “Canção de Beowulf”, um lamento a evocar aqueles seres e em-torno que “A morte os levou, a todos, em tempos idos...”
Bastará, afinal, talvez, lamentarmos com Castro Alves: “Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!.. . Vós bem sabeis quanto sois efêmeros... passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.”
Sentiremos a escorrer a vida, como lavrou Mary Shelley (1816), em sua obra-prima “Frankenstein”: “Nada perdura, a não ser a instabilidade.”
Talvez, Lucrécio esteja correto, ao indicar que “Muito rapidamente o tempo presente terá desaparecido e já não poderemos evocá-lo.” Afinal, no lamurio de Horácio, “somos todos sombras e poeira.” Olhamos, vivemos, degustamos, sofremos, e pode ser que também Montaigne esteja certo e filosofar seja “aprender a morrer”.
Homero concluiu: “Humanos, em suas gerações, são como as folhas das árvores. O vento sopra e as folhas de um ano caem ao chão... mas as novas folhas recobrem as árvores, quando a primavera se aproxima...” A ele seguiram as palavras de Antônio Vieira, “somos como folhas ao vento... Vem o vento e nos eleva... Um dia o vento cessa... Vento vida..." Mas não só os humanos. A própria Natureza no em-torno assim o é. Muda com as próprias gerações, que vão deixando contemplação orgulhosa ou lamentosa, às próximas vindouras.
Se tudo passa, ainda assim, há um dito que alguns derivam do pensamento do antigo imperador romano, Marcus Aurelius, e que apareceu recentemente no filme “O Gladiador”. A sentença é vital. “Tudo o que fazemos, em vida, ecoa pela Eternidade.” Talvez, a verdade paire entre o tudo passa e o ressoar eterno, expresso em um definitivo “Nada perdura, mas tudo ecoa pela Eternidade.”
Assim, a memória de um passado, que reverbera, em muito escondido sob pilhas de outros passados mal espiados, nos segue e se revela ainda, entre piscares de olhos, uma passada e outra, como as “espumas flutuantes”, as “flores perdidas na vasta indiferença do oceano” , ainda de Castro Alves. As espumas que podemos descobrir, olhar sentir e recolher são as pequenas heranças ainda gravadas nesta paisagem, clamores quase inaudíveis de paragens sepultas mas, de certa forma, ainda aqui. São os “efêmeros filhos” da alma deste lugar e dos que nele viveram suas razões e emoções.
Ao contemplarmos o nosso em-torno, afinal, lembremos Heracleitos... “Este mundo, o mesmo de todos os seres ... era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.” E rematamos a contemplação do que foi a Natureza sobre a qual nos debruçamos, primeiro com curiosidade, depois para entender, afinal para usufruir, sem perceber que isto significava aniquilar, para, depois, contemplar com pura perplexidade.
E fica um sentimento, bem evocado nas palavras da bela personagem “Forrest Gump”... “Não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos, como numa brisa.”
Peço agora, licença. Devo pegar minha piroga, saudar y-Îara, e deslizar pelas águas do y-gûasu Camará y pe, olhando estas margens, com suas ka'á povoadas de kapibara, socó, yaka’re... Usando tanto da sua força quanto da minha, chegarei no paranã. Remarei serenamente, seguindo a corrente. Passarei a itapuã e entrarei na grande Kirimnurê... Quero registrar, para sempre, no coração da memória, este dia, antes que o sonho se vá, e eu acorde para mais um dia, na Cidade do Salvador, Bahia, em agosto de 2008."
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SILVA FILHO, Rubens Antonio. "A integração de recursos históricos aos geológicos no resgate da construção paleogeomorfológica e paleovisual litorânea - o caso de Salvador, Bahia." Salvador (Bahia): Universidade Federal da Bahia, Dissertação de Mestrado, orientador: José MAria Landim Dominguez, 437 p., outubro de 2008.
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