Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

"Estrelas"... por Oswaldo Montenegro


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"Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das Estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar...

Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar

Não me fale do Seu medo
Eu conheço inteira Sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a Tua alegria não fosse bastar...

Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora... Você cantará..."
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Sexta-feira, Novembro 05, 2010

"Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço"

Merece replicação.
Copiado do blog;
http://www.amalgama.blog.br/11/2010/mayara-petruso-nordeste/


"Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço"

por Raphael Douglas

“Para não aceder à humanidade, as
pessoas se atiram nas profundezas sombrias
da doutrina zoológica que é o racismo.”
Franz Kafka

por Raphael Douglas – Vou citar uma expressão das ruas que ouvi ontem quando um amigo leu as ultimas manifestações pós-eleição no twitter. Perdoem-me a citação. Disse: “Se filho da puta voasse, seria impossível ver o céu no Brasil.” O proferiu sem muita eloqüência, mas quis dizer que não acredita que toda a população nacional tenha ideias como as que veremos abaixo, afinal, restariam pessoas coladas ao chão tentando observar o azul do céu obnubilado pelo preconceito. Concordo com ele. É óbvio que existem muitos indivíduos que pouco se importam com as diferenças regionais, de sotaque ou mesmo da renda per capita da cidade onde se vive.

A moça em questão responsabiliza categoricamente o Nordeste pela vitória de Dilma Rousseff. Todavia, como afirma a redação da Rádio Criciúma, “as postagens dos internautas responsabilizando o Nordeste pela vitória petista, mostram seu desconhecimento dos números da eleição, já que se o Nordeste fosse excluído dos cálculos, Dilma ainda venceria Serra, com uma diferença de cerca de 1,3 milhão de votos.” O fato de buscar a desalienação das informações rasas é um bom exercício ao espírito. Não tiraria nunca como informação universal que todos os paulistanos exercem a conduta da senhorita Mayara Petruso. Aliás, os paulistanos que conheço são gente de caráter altivo e admirável. A amizade e a admiração transcendem qualquer diferença, aproxima pessoas. A pétrida Petruso já pediu desculpas. Mas a pedra que ela atira é apenas mais uma que ajuda a erguer a montanha da infâmia. Pedir desculpas não resolve fundamentalmente a questão que existe muito antes do twitter nascer.




Quando eu adquiri consciência, ou seja, quando obtive as primeiras percepções de mim mesmo, me foi dito que eu era homem, brasileiro e nordestino. Quando pequeno, o juízo de valor estava distante então não entendia o que o último predicado queria dizer. Pois bem, o sucesso negativo, mais uma vez, nas redes sociais é o tratamento de um ente que sinceramente não conheço. Chama-se: Nordeste. E o pior, dizem que é onde eu vivo. Há anos me amotino e me questiono se não sou esquizofrênico. Penso em procurar ajuda especializada, pois creio estar projetando ao meu redor um mundo que não corresponde ao que ele é de fato. Pois, quando acordo de manhã e falo com meu vizinho, ele não passa fome, aliás, pelo que vejo de suas posses materiais, nem ele e nem sua geração futura passarão. Saio à rua e dou bom dia ao segurança da esquina. É nordestino, trabalha como segurança (no Nordeste) e tem um grau de alfabetização relativamente sofisticado. Todos no Nordeste são alfabetizados? Não, eu sei. Mas o segurança sabe mais dos presidentes da república que passaram pelo Brasil do que eu. Vou trabalhar: dou aulas para um monte de nordestininhos. Não são ignorantes e não passam fome. Aliás, pelo que vejo, não passarão. Nenhum deles faz uso das bolsas assistencialistas atuais. Os donos da escola são nordestinos especialistas em técnicas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento de futuros profissionais nordestinos (e não só para o Nordeste).

No dia 31 de outubro de 2010, fui, como qualquer nordestino ou brasileiro, exercer meus deveres de cidadão. Presenciei vários eleitores de Dilma Rousseff, eleita devido a popularidade de um Nordestino, que não chegavam montados em jumentos ou usavam chapeuzinho de couro. Vinham em ônibus bem conservados, em carros novos, alguns até muito caros e suntuosos. Pude observar também um bom número de serristas, que por sinal, na cidade em que moro, ainda que não sejam a maioria, têm muito gosto de votar em José Serra e seu partido. Serra é muito respeitado entre os ricos e super ricos. O curioso é que os super ricos nasceram aqui. Falam PRÉSIDENTI E ÉLÉIÇÃO. Nordestinos são entes submetidos às leis e possuem escolhas livres, logo, são seres humanos. Sendo assim, é possível que votem ou não em Serra ou em quem quer que seja.

Pois bem. Votei e fui comer numa multinacional insuportavelmente lotada de nordestinos. Não passavam fome, mas ao contrário pagavam 32 reais num simples Big Apple. Então quer dizer que o Nordeste, na visão de quem escreve agora, é a maravilha do mundo? Calma. Ao sair da multinacional, passando por um viaduto, construído por nordestinos e para nordestinos (e visitantes) circularem pela cidade, observei que a favela de sempre está lá: cheia de nordestinos e eles não estão bem. Sofrem com violência e abandono do governo. Assim como há “Brasis”, há nordestes. Assim como no Nordeste há dinheiro, há a completa ausência dele.

Mas caminhemos. O que me assusta é a maneira como chega a ideia de Nordeste fora do Nordeste. Parece haver um Nordeste medieval sendo citado nas mídias. Chão rachado, ausência de água e recursos simples. É como se o lugar, na sua totalidade, vivesse apenas mendigando commodities. E o esquizofrênico que vos fala, sempre que vê o Nordeste, descobre oportunidades profissionais, olha pela janela de casa e enxerga arranha-céus, bairros tradicionais, parques públicos bem arborizados e saudáveis, classe média, baixa e pessoas sem oportunidade, esquecidas pelo governo que é formado, também, por nordestinos. Como em qualquer lugar do Brasil, no Nordeste há a pitoresca convivência do medieval com o moderno e tecnológico, do paupérrimo com o fetiche do luxo. Brasil que nada mais é do que mais um país da subdesenvolvida América Latina. Paulistanos, Gaúchos, Cariocas, Paraenses, Baianos, Capixabas, Potiguares, entre outros, participam de um mesmo predicado: brasileiro.

E de quem é a responsabilidade da imagem desse tal Nordeste paralelo? Primeiro, e sem dúvida, dos políticos nordestinos. Mas por quê? Simples, A indústria da seca! Seca essa que só vi umas duas vezes na vida. Essa indústria enche os bolsos dos políticos tortuosos. Ela existe, é óbvio e além de óbvio é triste. Coisas da facticidade. Mas, por Deus! Há água no lençol freático dos sertões! Por que não gastar milhões e fazer a água emergir? Não interessa aos “coronéis”. É muito mais oneroso tratar a favelização, do que a manutenção do povo em sua terra natal. Como diria Aristóteles, bem antes dos geneticistas, um erro no início, acarreta um erro ainda maior no final.

A culpa não é expressamente da mídia, ainda que seja ela a responsável por vincular imagens e estereótipos. Chega desse escandalozinho contra a afundação (sic) Roberto Marinho, como se ela fosse réu todo o tempo. E olhe que não vejo essa rede de TV há anos, não aprovo seus métodos e filosofia. Enfim, uma coisa importante é começar a trabalhar fenomenologicamente o conceito de nordestino. Os humanos que vivem amontoados nas periferias do Rio e de São Paulo não são o conceito universal de nordestino. Eles têm em si certos predicados essenciais. Mas não vivem mais no Nordeste, assumiram o ethos de outro lugar. Quando a Petruso pede que se afogue um nordestino, ela o pede em favor de São Paulo. Mas São Paulo não é Nordeste. Pelo que sei, a cidade supracitada abriga um monte de gente que no Nordeste não teve chance alguma. Fiquei extremamente ofendido numa das viagens que fiz e não fui considerado aparentemente um ente nordestino. Motivo alegado? Sendo bem direto e sem falso moralismo: sou branco, cara de europeu (libanês, árabe ou judeu, foi o que ouvi), tenho 1,87 cm de altura, não passo fome, estava fazendo turismo e gastando dinheiro. Essa é a evidência, a informação positiva. Logo, deve haver o conceito negativo e esse tem sido tomado erroneamente como fator universal. Achei absurdo o desconhecimento histórico. A genética de onde venho obviamente é portuguesa, com despejos genéticos holandeses, da forte presença negra, indígena, árabe, devido ao passado da união ibérica, em suma, mestiça por inteiro: que belo! E não sou 1% menos nordestino por isso.

Então vamos lá. Conceito obtido por negação. Ser nordestino é: passar fome, não ser branco, ter uma altura inferior a 1,65 cm e ter inscrito na genética da existência que a migração é o fator necessário para melhorar de vida. Sejamos honestos. Esse papo furado de região inferior é uma balela. No Nordeste existem psicopatas, estelionatários, doleiros, criminosos, colarinho branco e, também, muito preconceito reverso. Discurso de etnia oprimida, além de versar sobre algo que não existe, não justifica ações como essa:



Observaram? Nordestinos também são preconceituosos. É um déficit ontológico. Atinge qualquer um. Longe, muito longe de ser um lugar perfeito, o Nordeste e suas capitais nada mais são do que megapixels na pobre América latina. Tristes trópicos! Diria o mais recente intelectual finado. No fim das contas somos todos iguais quando vistos desde fora. Para um norte-americano médio, por exemplo, não somos muito diferentes dos nossos vizinhos, ou seja, a “nata do lixo”. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Buenos Aires, Santiago, La Paz, Bogotá, San José, San Salvador, Cidade da Guatemala, Montevidéu, Caracas, Manágua, Tegucigalpa, Panamá, Assunção, Lima, entre outras, são America Latina e ponto. Deste ponto de vista, não parecem ridículas essas refregas regionais? O que falta para o Brasil se conhecer autenticamente? Até onde é possível perdoar a ignorância, aliás, a desinformação? Como iniciar um projeto de veiculação da imagem das vidas reais nas cidades brasileiras? A quem interessa que o raso e o superficial continuem pedagozigando nossa ideia de Brasil?

A companheira Mayara certamente agiu emotivamente devido à força da história. Presenciou seu candidato em derrocada. Mas é aí que conhecemos os homens cautos e os desmedidos, os racionais e os estomacais. Na emoção, ela honestamente transcendeu a hipocrisia e vomitou as substâncias que permeiam seu organismo. É uma preconceituosa. Ricardo Timm, grande pensador nacional, diz que “o preconceituoso é a mais precária das criaturas: qualquer um, qualquer salafrário inteligente, qualquer ideologia delirante, faz dele uso e abuso. Sonhando a vida inteira em não ser mais do que lixo, o preconceituoso se realiza quando é transformado efetivamente em lixo para a combustão da exploração e violência contra o outro. Essa é sua única festa, a única a que se permite; não ser, no fundo, nada, é seu sonho mais recôndito, e habitar uma região onde a esperança possa alcançá-lo é sua concepção de porto seguro. Morto-vivo, capitulou diante do mundo; fugiu da história para não ter de entender nem ao menos sua própria história. A atitude preconceituosa é a negação da inteligência, ou, o que dá no mesmo, a negação da abertura ao outro.”

Preconceituoso é aquele que discrimina. Normalmente, quando nos deparamos com o desconhecido, ou com o parcialmente conhecido, cometemos generalizações apressadas, induzimos inadvertidamente. Sim, é um movimento natural do intelecto mover-se por concepções prévias. Mas, como eu disse em outro texto, é inteligente notar que existe uma diferença abissal entre pré-conceito e discriminação. Toda indução é abusiva e toda dedução, incerta. Há uma ideia de Nordeste obscurecendo o que é o Nordeste Real. Não façamos isso com o Nordeste, não façamos isso com o Brasil.

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a primeira imagem foi retirada do blog de Renato Rovai
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Sexta-feira, Outubro 15, 2010

A Terrível Luminescência da Pala

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Por Rubens Antonio da Silva Filho
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Comecemos pelo princípio... Uma canção. Uma música. Uma letra. Keith Reid, que, junto a Matthew Fisher e Gary Brooker, coautorou a letra, afirmou, quando inquirido pelos fãs, sobre o significado da canção, algo que foi contestado por estudiosos. Ele disse que sua música "é como olhar uma pintura abstrata". A declaração de alguns críticos é que a colocação do autor não é entendida como válida.
Entretanto, é precisamente o que parece, uma Pintura... sonora. Talvez o melhor caminho seja aventurarmo-nos pelo traço de Pintura Surreal.
Reid afirmou que ouviu, em uma festa, alguém dizer a uma mulher: "You've turned a whiter shade of pale..." A partir daí, derivou tudo.
O resultado foi a bela composição em que Brooker "desenha" uma claríssima evocação da "Ária na Corda Sol", de Johann Sebastian Bach.
O começo da composição remete a alguém descrevendo a vertigem que lhe dá no voluteio de uma dança. É um Fandango, uma dança de origem espanhola, tradicionalmente cantada e sapateada, sendo o "bate pé" levado até num ritmo hipnótico. O protagonista da canção começa a se sentir tonto, enjoado. A vertigem o toma, enquanto a alusão à embriaguez aparece na forma de uma bebida que chega, servida por um garçon.
A embriaguez é uma referência básica para o acesso à visão, e ela se faz, nesta letra de canção através da dança, do volteio e da bebida. Conforme Brandão (1986, p.97), a Pitonisa ou Pítia, sacerdotisa maior de Apolo, "possivelmente, em estado de êxtase e entusiasmo [...] respondia às consultas que lhe eram feitas" . Era assim que ela "balbuciava palavras entrecortadas, que eram recolhidas pelos sacerdotes. Essas palavras incoerentes da pitonisa eram redigidas, a princípio, em verso hexâmetro e, mais tarde, também em prosa, e oferecidas como resposta às consultas formuladas". E vê-se esse protagonista diante de um velho Moleiro, que, em alguns contos e romances, é uma referência para um sábio, um mago, um astrólogo ou adivinho.
O auge da música, a última frase, é quando o narrador vê o brilho de ou da “pale”... Jogue-se fora a tradicional tradução de “pale” para “pálido”... E releiam como o "brilho embranquecedor da pala". Porque a palavra “Pale” traduzida corriqueiramente por “pálido”... é um equívoco.
Poucos evocam a ligação da palavra “Pale” com o “Vestal Virgins” anterior.
A Pala é uma peça de vestuário.
A Pala, o Pálido ou Alvo era, na Antigüidade Clássica, também é uma espécie de véu, um separador entre dois mundos.
Na Roma Antiga, a Pala era, especialmente, o manto da Sacerdotisa Vestal maior.
No contexto de embriaguez, com nuances claras de evocações de transcendência, a “Pale” tem que ser lembrada não como “pálida”, mas como um paramento, modo de véu ou o Manto Sagrado usado pela maior sacerdotisa de Vesta, ou mesmo podemos pensar a “Pàlida” como a própria sacerdotisa maior... Vesta era a deusa romana do Lar, filha de Cronos - Saturno, deus do tempo, e de Réa - Géa, a Terra. A ela também remete o comentário na mesma estrofe sobre as virgens vestais.

Os romanos tinham, à entrada da casa, um recinto que era dedicado aos Lares, entidades benéficas da casa, com esculturas mostrando seus ancestrais. Havia um altar nesse ambiente. Pouco resta deles no "living room", mas procure que acha... fotos de família... às vezes, naquele ambiente de recepção e transição para o nosso mundo particular. Muitos dos emigrantes europeus que chegaram ao continente americano, no século XX, trouxeram consigo a tradição que foi desaparecendo do consciente e permanececendo só em rudimentos da memória. de uma “pala”, a sala de recepção... que tinha elementos predominantemente... “pálidos”, ou seja, claros, preferencialmente brancos...
Releiam a música. Releiam junto a melodia. Sintam que ela é como o caminho suave de uma marcha das vestais, com seus mantos brancos, em um templo, que vai tomando o narrador.
Creio que, por esse caminho, podemos chegar perto da transcendência que essa melodia provoca... e que também está quase oculta no texto.
Ao começar a música A Whiter Shade Of Pale, anuncia-se a dança de um Fandango. Esta é uma dança de origem espanhola, tradicionalmente cantada e sapateada, sendo o "bate pé" obrigatório nas modalidades tidas como mais rústicas, ou mais preservadas. Possui um compasso ternário (3/4) ou binário composto (6/8), em andamento forte, marcado pelo som das castanholas, com o acompanhamento de cordas.
É sob tal som que o par desliza e volteia, e o protagonista da canção começa a se sentir tonto, enjoado. A vertigem o toma, enquanto a alusão à embriaguez aparece na forma de uma bebida que chega.
A embriaguez é uma referência básica para o acesso à visão, e ela se faz, nesta letra de canção através da dança, do volteio e da bebida. Conforme Brandão (1986, p.97), a Pitonisa ou Pítia, sacerdotisa maior de Apolo, "possivelmente, em estado de êxtase e entusiasmo [...] respondia às consultas que lhe eram feitas" . Era assim que ela "balbuciava palavras entrecortadas, que eram recolhidas pelos sacerdotes. Essas palavras incoerentes da pitonisa eram redigidas, a princípio, em verso hexâmetro e, mais tarde, também em prosa, e oferecidas como resposta às consultas formuladas". E vê-se esse protagonista diante de um velho Moleiro, que, em alguns contos e romances, é uma referência para um sábio, um mago, um astrólogo ou adivinho.
É nesse mesmo instante que o narrador vê, ao olhar para a sua acompanhante, o "brilho embranquecedor da pala".
A Pala era um paramento, modo de véu ou o Manto Sagrado usado pela maior sacerdotisa de Vesta, a deusa romana, uma das maiores referências dentre as divindades cotidianas romanas. De fato, conforme recorda Barbara Abramo (1995), ela era a verdadeira personificação dos Lares. Neles nos quais o fogo íntimo queimava, cozinhando a comida de cada dia, sendo sua referência esse mesmo fogo, que tinha representado em seu templo, daí presidindo os destinos de cada família e, por extensão, da cidade de Roma como um todo.
A deusa Vesta e sacerdotisas vestais.

Esta filha de Cronos - Saturno, deus do tempo, e de Réa - Géa, permaneceu virgem e casta apesar dos muitos pretendentes. Foi, por tal, presenteada por seu pai com a honra de ser a deusa mais venerada nas famílias, protegendo a castidade das filhas e esposas, tão prezada e importante para gregos e romanos.

Assim, era extremamente comum cada casa ter uma estátua ou estatueta de Vesta, que se apresentava segurando uma lâmpada, que simbolizava o fogo eterno, tendo um burro a seu lado, que um dia a protegeu de um estupro.
De fato, os elementos referenciais de divindades tidas como caseiras eram extremamente prezados em Roma. Nos átrios das casas aparecia, com freqüência, uma capela dedicada aos lares, divindades protetoras domésticas, geralmente dominado por um pequeno fogo ritual. Era a lareira, próximo à qual estavam os bustos dos antepassados. E Vesta acabava atuando como uma protetora dos penates, que eram almas dos familiares antepassados que atuavam protegendo as suas famílias, os seus descendentes.
Brandão (1986) indica a origem do seu nome na mesma família etmológica da Héstia grega, ambos os nomes vindo do indo-europeu ues, que significava "residir". Enquanto manifesta como Héstia, essa divindade era, no dizer de Brandão (1986), "mais um conceito abstrato, a Idéia da Lareira, do que uma divindade pessoal, o que explica não ser a grande deusa necessariamente representada por imagem, uma vez que o fogo era suficiente para simbolizá-la".
Ruína do templo das vestais, em Roma.

Nessa civilização, tão apegada aos elementos de domínio particular, Vesta tinha importância fundamental e a sua instituição como elemento do próprio Estado foi assumida pelo segundo rei de Roma Numa Pompilius. Este fora, portanto, o sucessor direto de Rômulus, tendo gerido aquela então cidade-estado entre 715 aC e 673 aC.
As primeiras sacerdotisas foram nomeadas por Numa, chamavam-se Canuleia e Tarpeia. Mas tarde, foi Sérvius que adicionou mais duas.
O latim Vestale conduziu ao nosso vocábulo Vestal, que, além de ligações com a fonte, isto é, referência à deusa Vesta, ganhou contornos de Mulher "muito honesta", "casta ou virgem", "semelhante às vestais", "virginal". As Virgens Vestais aparecem na Bibliografia citadas como seis (Hermes Mirabel), dez (Brandão, 1986) ou dezesseis, outros que eram quatro no início, tornando-se seis mais tarde. De qualquer quer forma, estavam locadas em um pequeno mas importantíssimo templo de Vesta em Roma. Nele realizavam tarefas domésticas simbólicas, referenciando o apoio do Estado a seus elementos mais simples, que se revestiam de grande importância.
Acima de tudo, tomavam conta do fogo sagrado que ardia continuamente num templozinho circular, localizado no Fórum romano.
Escolhidas nas famílias patrícias, tinham, quando das suas eleições, entre os 6 e os 10 anos, sendo conduzir meninas mais novas ou velhas que isto à função sacerdotal considerado ilegal.
Havia todo um conjunto de requisitos que deveriam ser preenchidos. Por exemplo, ambos os pais deveriam estar vivos, e não terem imperfeições físicas, especialmente defeitos auditivos ou de fala. Deveriam jamais ter sido escravos ou ocupado funções de trabalho menos nobres. Não poderiam ser eleitas vestais meninas que os pais residissem fora da Itália ou que já houvessem tido três filhos.
"Virgem Vestal velada", por Raffaele Monti

Os textos mais antigos indicam que havia a seleção prévia de vinte meninas, já guiada pelo Pontifex Maximus, isto é, o grande sacerdote romano. Submetidas a uma assembléia sacerdotal, a escolha final caí sobre uma única. Essa era tomada pelo Pontifex Maximus, como já sendo propriedade da deusa Vesta.
Uma outra via para que uma menina viesse a se tornar uma Vestal era aquele de ter um pai de origem nobre, o qual, simplesmente, a apresentaria ao próprio sumo pontífice.
Em um livro, o romano Fabius Pictor registrou as palavras ditas pelo Pontifex Maximus, por ocasião da comunicação à menina, da sua sagração como vestal, enquanto abraçava-a:
"Te Amata Capio"... "Tomo-Te, Amata, para ser uma Sacerdotisa Vestal, que se encarregará dos ritos sagrados que são a Lei para uma Sacerdotisa Vestal realizar, representando o Povo Romano, nos mesmos termos que a melhor das Vestais."
O Nome Amata, dito pelo sacerdote, é simplesmente o nome aceito como o da primeira mulher sagrada Virgem Vestal.
Escolhida a menina, era levada ao templo de Vesta, não podendo ser, sem função disto, considerada emancipada nem prejudicada em testamento.
A parti daí, seriam 30 anos no serviço sacerdotal, até, afinal, poder deixar as funções e o próprio templo.
Durante os primeiros dez anos, eram adestradas no serviço, nas atribuições sacerdotais. Nos próximos dez anos, cabia à mesmas a execução das tarefas aprendidas. Suas vestes passariam a ser uma túnica de tecidos cinza e branco, e um grande manto avermelhado, enquanto a cabeça era coberta por um véu. Assemelhava-se esta veste ao traje nupcial, pois estava a vestal simbolicamente casada.
As introdução das regras foi atribuídas a Phintys, uma mulher membro de uma comunidade pitagórica. Estas teriam sido escritas originalmente por Theano, já tida como a filha ou a esposa do próprio filósofos Pitágoras, e uma filha dessa, de nome Myia.
Na verdade, considera-se que, além de não originalmente escritas por qualquer uma dessas, também não teriam sido escritas por qualquer mulher. De fato, elas não passavam de exercícios de retórica e tratamentos compostos por homens, provavelmente de diferentes lugares em momentos distintos. Conforme Thesleff, isso porque falam de elementos mais caros à ideologia masculina de então que à eminentemente feminina. Assim, tratam de pontos como a castidade feminina, tida como a maior virtude feminina, e o elenco dos deveres da esposa, destacando-se a obediência.
Um comentário de um romano do século III aC traça bem a ambiência que gerou as regras das vestais, e que pode nos indicar bem as suas regras:
"Agora algumas pessoas acham que não é apropriado para uma mulher ser uma filósofa, assim como não pode ser um oficial de cavalaria ou um político... Eu concordo que homens podem ser generais, oficiais urbanos em geral ou políticos, e a mulher deve permanecer dentro do lar, e receber bem, e cuidar bem do seu esposo... Se eu acredito que coragem, justiça e inteligência são qualidades que homens e mulheres têm em comum... Coragem e a inteligência são mais apropriadamente qualidades masculinas, em função dos seus corpos e mentes. A castidade é a qualidade mais apropriada da mulher... Uma mulher deve aprender a respeito de castidade e realizar tudo quantitativamente e qualitativamente para atingir essa virtude feminina, acreditando eu existirem cinco qualificações básicas:,
- a santidade do seu leito de casada - a pureza do seu corpo
- a MANNER pela qual ela elege deixar ssua casa
- refutar participar dos cultos sagradoos de Cybele
- Presteza e moderação no sacrifício aoos deuses
"
Nos últimos dez anos da vida como sacerdotisas, adentravam as vestais sua fase de mestras, na qual ensinavam as obrigações rituais às novatas que as sucederiam.
Só aí as virgens, encerrando-se o ciclo de 30 anos, estariam livres para casar. Como não poderiam permanecer no templo, sacerdotisas, e dificilmente conseguiam assumir uma vida comum, era corriqueiro mergulharem em estados de depressão diversos, mas sendo tratadas com uma grande reverência pelos romanos. Não raro, permaneciam virgens para o resto das suas vidas.
Entre as honras e privilégios que passavam a galgar, estabelecidos já por Numa, estava uma grande independência em relação ao pai, algo incomum para virgens, mesmo tardias. Além disto, poderiam conduzir negócios sem tutores.
Quando saíam às ruas, eram precedidas por lictores com fasces. Se acontecesse de encontrarem com um criminoso a caminho da execução, sua vida deveria ser poupada. Por outro lado, qualquer um que se atrevesse a passar por baixo da liteira de uma vestal era imediatamente conduzido à morte.
Marcadas por uma disciplina férrea, as vestais, em função de erros mínimos, eram punidas por açoite e retiro em recinto escuro.
Uma virgem que fosse seduzida e descoberta, tinha um destino terrível. Em primeiro lugar, era preparado um pequenino recinto, com a entrada na parte superior. Dispunha de um pequeno leito e um cobertor, além de pão, água, leite etc...
Vestal condenada aguardando execução, por Pietro Saja.

A virgem corrompida, ainda no templo, era colocada acorrentada em uma liteira, que era completamente vedada por ripas, até que sua voz ou gritos não fossem mais ouvidos. Assim era conduzida ao fórum. A procissão seguia silenciosa, acompanhada por espectadores que não se atreviam a falar.
Era um dia encarado como terrível, carregando o ambiente de maus presságios.
A procissão seguia até o Portão da Collina. Ali, findo o percurso, aberta a cela ambulante, as correntes eram retiradas da condenada.
A sacerdotisa máxima elevava as mãos aos deuses, tecendo uma oração, pedindo a esses rapidez na conclusão do evento. Era a condenada descida ao pequeno recinto, quando, então, voltavam as costas a ela, a sacerdotisa maior e as demais vestais, afastando-se.
Sacrifício de Vestal

Fechada a entrada, era despejada por sobre a mesma uma grande pilha de terra, que era trabalhada, aplainada. Isso até que nada indicasse a existência daquela câmara com sua prisioneira.
Ali era abandonada para sempre, sepultada viva.
Portanto, falar-se em Vestais é tratar de um lado obrigatoriamente mais introvertido da mulher, de virgindade, de obrigações e pureza psicológica no cumprimento da manutenção dos valores tradicionais, protegendo a chama sagradas. Para Brandão (1986), "Héstia, como Vesta e suas dez Vestais, talvez simbolizem o sacrifício permanente, através do qual uma perpétua inocência serve de exemplo substitutivo ou até mesmo de respaldo às faltas perpétuas dos homens, granjeando-lhes êxito e proteção".
Observa ainda Brandão (1986) que "quanto à significação sexual do fogo, é preciso observar que ela está intimamente ligada à primeira técnica de obtenção do mesmo, pela fricção, pelo atrito, pelo vaivém, imagem do ato sexual, enquanto a espiritualização do fogo estaria ligada à aquisição do mesmo pela percussão. Mircea Eliade chega à mesma conclusão e opina que a obtenção do fogo pelo atrito é tida como o resultado a "progenitura" de uma união sexual, mas acentua, de qualquer forma, o caráter ambivalente do fogo: pode ser tanto de origem divina quanto demoníaca, porque, segundo certas crenças arcaicas, o fogo tem origem nos órgãos genitais das feiticeiras e das bruxas."
Prossegue colocando que "Para Gaston Bachelard o "amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo e antes de ser o mesmo filho da madeira, é filho do homem... O método de fricção surge naturalmente. É natural, porque o homem tem acesso a ele por sua própria natureza. Na verdade, o fogo foi surpreendido em nós, antes de ser arrancado do céu..." (Gaston Bachelard, 1965) Há, consoante o mesmo Bachelard, duas direções ou duas constelações psíquicas na simbologia do fogo, segundo é obtido por percussão ou por atrito. No primeiro caso, está intimamente ligado ao relâmpago e à flecha e possui um valor de purificação e iluminação, convertendo-se no prolongamento ígneo da luz. Diga-se, de caminho, que puro e fogo em sânscrito se designam pela mesma palavra:
agnih, que é, aliás, um empréstimo do hitita Agnin, em latim ignis, fogo. A esse fogo espiritualizante se prendem os ritos de iniciação, o fogo, os fogos de elevação e sublimação, em síntese, todo e qualquer fogo que visa à purificação e à luz. Opõe-se, nesse sentido, ao fogo sexual, obtido por fricção, como a chama purificadora se contrapõe ao centro genital da lareira matriarcal, como a exaltação da luz celeste se distingue do ritual de fecundidade agrária. Assim orientado, o simbolismo do fogo dimensiona a etapa mais importante da intelectualização do cosmo e afasta mais e mais o homem da sua condição animal. Prolongando ainda mais o símbolo nessa mesma direção, o fogo seria um deus vivo e pensante, que nas regiões arianas da Ásia recebeu o nome de Agni e Ator."
Coloca ainda Brandão (1986) que, "em síntese, o fogo que queima e consome é um símbolo de purificação e regeneracão, mas o é igualmente da destruição. Temos aí nova inversão do símbolo. Purificadora e regeneradora a água também o é. Mas o fogo se distingue da água na medida em que ele configura a purificação pela compreensão, até sua forma mais espiritual, pela luz da verdade; a água simboliza a purificação do desejo até sua forma mais sublime, a bondade".
O "Colégio Vestal" foi fechado em 389, por determinação do Imperador Romano Theodósio, já ligado aos ventos de cristanização do Império Romano.
Estamos, neste ponto, com provável compreensão apropriada para entendermos o texto da nossa música.... e foi o ver a mulher que desejava, qual Virgem Vestal que afetou o protagonista. Ele não poderia aceitar o que o destino impunha, e que o sábio em suas cartas via. Não importava a ele mais seus olhos abertos ou fechados, no seu devaneio. Queria-a e não a deixaria partir, permanecer intocada, virgem.
Evoquemos, aqui, a fala de Morgana:
"a Senhora de Nazaré- realmente poderosa, ao seu modo – que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?" Bradley (1982, p.11)
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BIBLIOGRAFIA

BRADLEY, Marion Zimmer. "As Brumas de Avalon". São Paulo (São Paulo): Círculo do Livro S.A.. trad. Waltensir Dutra, (1982) 1988.
BRANDÃO. Junito de Souza. "Mitologia Grega." Petrópolis (Rio de Janeiro): Editora Vozes,1986. CORNEL, Tim; MATTHEWS, John. "Roma – legado de um Império". Madri (Espanha): edições del Prado, trad. Maria Emilia Vidigal, 1982.
LEFKOWITZ, Mary; FANT, Maureen B.. "Women's life in Greece and Rome". sl: sd. PLUTARCO. "Life of Numa Pompilus". sl: sd.
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Terça-feira, Novembro 10, 2009

"Your Song..." Elton John


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"It's a little bit funny... this feeling inside
I'm not one of those who can... easily hide
I don't have much money but... boy... if I did
I'd buy a big house where we both could live
If I was a sculptor, but then again, no
Or a man who makes potions in a travelling show
I know it's not much but it's the best I can do
My gift is my song and this one's for You
And you can tell everybody this is Your Song
It may be quite simple but now that it's done
I hope You don't mind
I hope You don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world
I sat on the roof and kicked off the moss
Well a few of the verses well they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song
It's for people like you that keep it turned on
So excuse me forgetting but these things I do
You see I've forgotten if they're green or they're blue
Anyway the thing is what I really mean
Yours are the sweetest eyes I've ever seen..."
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Sábado, Junho 13, 2009

"Inesquecibilidade..."


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Um trabalho Científico necessariamente termina em uma Conclusão. Uma Dissertação de Mestrado assim também o necessita.
Entretanto, ao longo do tempo, tem havido uma desnecessária Confusão entre Conclusão e Epilógos, que seria o Apogeu da Razão contida na obra.
Abriu-se mão da antiga Epifania. Esta, cuja signifcação acabou modifcada ou mesmo mutilada, ao longo do tempo, vinha sugeria o Apogeu do Sentimento ou da Emoção, que um trabalho provoca.
Em minha Dissertação de Mestrado, lancei mão da necessária Conclusão - Epilogos, mas não abri mão da Conclusão - Epifania.
Abaixo, ela aparece.
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CAPÍTULO 10 - EPIFANIA
Inesquecibilidade...

“Acho que já estou chegando aos finalmente...”
Última frase de Odorico Paraguassu - “O Bem-Amado” - Dias Gomes

Uma sublime composição dos ilustres Vinicius de Moraes e Tom Jobim é “Carta ao Tom”. Nela aparece:
“Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando pra Elizete
as canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz,
ai que saudade,
Ipanema era só felicidade
Era como se o Amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
este Rio de Amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo,
só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o Amor

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador
Minha janela não passa de um quadrado
A gente só vê cimento armado
Onde antes se via o Redentor
É meu amigo só resta uma certeza
É preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso Amor...”

Esta composição remete a um contraste profundo entre um passado de uma localidade e sua atualidade, desmoralizada, enfeiada, estupidificada, caricata. Isto pela deformação em que as paisagens naturais são furtadas às vistas do narrador, devido à presença de edificações antrópicas.
Não temos como não contemplar nosso em-torno.
Vai pelas ruas da Cidade do Salvador, ao seu espírito que adeja, o seguir no vento calmo que a memória comporta, um tênue deslizar para além das nossas cotidianidades. Eleva-se um sentimento de inequívoca contemplação no perceber do palpitar, sob este asfalto cinza-pó, dos silentes trilhos sobre os quais movia-se a vida em manhãs não tão longe idas. Fluiam bondes, de balanços e sons que não mais reconhecemos, amealhando e distribuindo existências de olhares que não mais aqui estão, passeando por edificações, praças e árvores tão outras, de um passado retinto. Sob estes pisos que percorremos céleres nas tantas Praças da Sé do agora, antepassados ainda sonham suas e nossas labutas, razões, emoções, coisidades, memórias e esquecimentos. Sorriem, em laivos de momentos, em sobressalto, quando emergem homenagens fragmentárias, localizadas, que não passam do mero toque das suas vidas num segundo. E resgata-se uma baía bela, de saveiros, redes, naus, charéus, de Todos os Santos.
Bahia Baía desde os primeiros aguares. Baía Bahia desde os primevos passares de índios despidos, neste chão acolhidos por barros vermelhos, águas azuis e areias brancas. Límpidas em grãos às faixas e aos montes, em poesia abraçada ao vento. Dunas de obra e moldura, lançando olhares às primeiras velas que vêm dos mares.
Dunas que Gabriel Soares de Souza (1587) anotou terem sido guia e chama.
Dunas que impõe, nas cartas de marear, os Lençóis de Areia. Sussurro de suave poesia em grãos, que eram à entrada da Bahia.
Dunas de cartas e diários, cantando o frei Manuel da Paixão e Dores (in Peixoto, 1946), suave elegia irresistível. “Mi Amigo. Teremos lleado a la Bahia, mire usted por mi oculo los lençoles.”
Dunas que viajante, emergindo vital beleza, convidaram, como François Payard (1615, in Peixoto, 1946), a remeter amplidão: “Começamos a ver a Terra do Brasil que é muito branca e parecia lençóis e panos que se secam, ou bem neve, razão porque os portugueses a chamam Terra dos Lençóis.”
Aí, no Mar já não mais Tenebroso, já nem tanto desconhecido, o acenar da nossa terra em uma prece de cuidado pelos recifes próximos. Atualmente, atravessa-se, ao chegar ao Aeroporto de Salvador, o portal encantado de bambus, marcando simbolicamente, com grande beleza, a chegada à Cidade da Bahia. No passado, portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses, franceses, italianos, eram recebidos por nossas dunas, antes de aspirar o cheiro dengoso de dendê. Dentes brancos em sorrisos de chegada. Lenços brancos da serena despedida.
À véspera da entrada à Baía de Todos os Santos, um belo areal se encaixava continente entre as últimas águas, que venciam os recifes, e os altos verdejantes do Ypiranga e do Gavazza. Curvada após a Ponta do Padrão, a vida adentrava a Bahia, de elevado paredão e raras praias. Bahia tão difícil recuperar quanto a visão de um coqueiral a partir dos poucos coqueiros sitiados em miseráveis quadrículas, por um mar de concreto, asfalto, esquecimento e omissão.
É um passado que, permanecendo no encanto, morre ainda hoje, quando sepultamos o antigo Rio dos Seixos, que ainda corre, em seus últimos momentos, pelo vale do antigo Caminho do Calabar, atual Avenida Centenário. Visto com os olhos do sentimento, ali está um bahiano, assim, com “h” mesmo, mestiço, com cabelos e barbas brancas. Suas águas são, agora, lágrima a fluir no último passo de morte da memória.
Restará, talvez, como na “Canção de Beowulf”, um lamento a evocar aqueles seres e em-torno que “A morte os levou, a todos, em tempos idos...”
Bastará, afinal, talvez, lamentarmos com Castro Alves: “Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!.. . Vós bem sabeis quanto sois efêmeros... passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.”
Sentiremos a escorrer a vida, como lavrou Mary Shelley (1816), em sua obra-prima “Frankenstein”: “Nada perdura, a não ser a instabilidade.”
Talvez, Lucrécio esteja correto, ao indicar que “Muito rapidamente o tempo presente terá desaparecido e já não poderemos evocá-lo.” Afinal, no lamurio de Horácio, “somos todos sombras e poeira.” Olhamos, vivemos, degustamos, sofremos, e pode ser que também Montaigne esteja certo e filosofar seja “aprender a morrer”.
Homero concluiu: “Humanos, em suas gerações, são como as folhas das árvores. O vento sopra e as folhas de um ano caem ao chão... mas as novas folhas recobrem as árvores, quando a primavera se aproxima...” A ele seguiram as palavras de Antônio Vieira, “somos como folhas ao vento... Vem o vento e nos eleva... Um dia o vento cessa... Vento vida..." Mas não só os humanos. A própria Natureza no em-torno assim o é. Muda com as próprias gerações, que vão deixando contemplação orgulhosa ou lamentosa, às próximas vindouras.
Se tudo passa, ainda assim, há um dito que alguns derivam do pensamento do antigo imperador romano, Marcus Aurelius, e que apareceu recentemente no filme “O Gladiador”. A sentença é vital. “Tudo o que fazemos, em vida, ecoa pela Eternidade.” Talvez, a verdade paire entre o tudo passa e o ressoar eterno, expresso em um definitivo “Nada perdura, mas tudo ecoa pela Eternidade.”
Assim, a memória de um passado, que reverbera, em muito escondido sob pilhas de outros passados mal espiados, nos segue e se revela ainda, entre piscares de olhos, uma passada e outra, como as “espumas flutuantes”, as “flores perdidas na vasta indiferença do oceano” , ainda de Castro Alves. As espumas que podemos descobrir, olhar sentir e recolher são as pequenas heranças ainda gravadas nesta paisagem, clamores quase inaudíveis de paragens sepultas mas, de certa forma, ainda aqui. São os “efêmeros filhos” da alma deste lugar e dos que nele viveram suas razões e emoções.
Ao contemplarmos o nosso em-torno, afinal, lembremos Heracleitos... “Este mundo, o mesmo de todos os seres ... era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.” E rematamos a contemplação do que foi a Natureza sobre a qual nos debruçamos, primeiro com curiosidade, depois para entender, afinal para usufruir, sem perceber que isto significava aniquilar, para, depois, contemplar com pura perplexidade.
E fica um sentimento, bem evocado nas palavras da bela personagem “Forrest Gump”... “Não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos, como numa brisa.”
Peço agora, licença. Devo pegar minha piroga, saudar y-Îara, e deslizar pelas águas do y-gûasu Camará y pe, olhando estas margens, com suas ka'á povoadas de kapibara, socó, yaka’re... Usando tanto da sua força quanto da minha, chegarei no paranã. Remarei serenamente, seguindo a corrente. Passarei a itapuã e entrarei na grande Kirimnurê... Quero registrar, para sempre, no coração da memória, este dia, antes que o sonho se vá, e eu acorde para mais um dia, na Cidade do Salvador, Bahia, em agosto de 2008."
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SILVA FILHO, Rubens Antonio. "A integração de recursos históricos aos geológicos no resgate da construção paleogeomorfológica e paleovisual litorânea - o caso de Salvador, Bahia." Salvador (Bahia): Universidade Federal da Bahia, Dissertação de Mestrado, orientador: José MAria Landim Dominguez, 437 p., outubro de 2008.
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Segunda-feira, Março 09, 2009

Blogs Recomendados

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www.christinaherrmann.com
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Sexta-feira, Março 06, 2009

Sumário - Busca Rápida


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- Araruama - "Hidráulica e sedimentação do Canal de Itajuru – Lagoa de Araruama." - por Lessa (1990)
- Ciência Normal - "A Ciência Normal e seus Perigos". por Karl Popper
- Cecília Meirelles
- Epistemologia - O que é Epistemologia?
- Florbela Espanca
- Geoarqueologia – O que é Geoarqueologia
- Heracleitos – Do Ser e do Estar - por Rubens Antonio
- Hidra de Lerna - “Prehistoric Coastal Environments in Greece: The Vanished Landscapes of Dimini Bay and Lake Lerna.” - por Zanger, 1991.
- Karl Popper e Thomas Kuhn: reflexões... por Francisco Ramos Neves
- “Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa?”, por Thomas Kuhn
- Mendel - "A História das Leis de Mendel na Perspectiva Fleckiana." - por Leite, Ferrari e Delizoicov, 2001.
- Nietzsche e o Nazismo - Nas asas da Mentira - por Rubens Antonio
- O Passo das Termópilas – por Kraft, Rapp Jr, Szemler, Tziavos, Kase (1987)
- Safo – Filha Imortal de Afrodite - por Rubens Antonio
- Um discurso
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"Fanatismo" - Florbela Espanca

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"Minh’alma, de sonhar-Te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de Te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que Tu és já toda a minha Vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do Teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em Ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que Tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
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Flor Bela de Alma da Conceição Espanca (1896 – 1930) escreveu seu primeiro poema aos 7 anos de idade. “A Vida e a Morte”. Casou-se no seu aniversário de 17 anos. Concluiu o curso de Letras aos 21.
Foi a primeira mulher a adentrar o curso de Direito da Universidade de Lisboa.
Sofreu um aborto involuntário aos 23 anos.
Publicou o “Livro de Mágoas”.
Começou a apresentar quadro de transtornos mentais. Separou-se. Casou-se novamente um ano depois. Publicou o “Livro de Soror Saudade” aos 27 anos. Sofreu novo aborto. Separou-se. Aos 29 anos casou-se pela terceira vez. A morte do irmão a abala profundamente. Escreve “As Máscaras do Destino”.
Diagnosticada de um edema pulmonar, tentou suicídio duas vezes, em outubro e novembro de 1930. Conseguiu, afinal, precisamente no dia do seu aniversário... 8 de Dezembro de 1930, por envenenamento.
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