quarta-feira, 9 de novembro de 2022
A Lanterna dos Afogados
quarta-feira, 20 de abril de 2022
Safo... Filha de Afrodite
Olhando o céu, podemos
contemplar o cintilar majestoso da estrela Canícula, a nossa conhecida Sirius,
assim como, em algumas horas de alvorecer ou vespertinas, reluz soberano o
planeta Vênus, também denominado Vésper ou Estrela d'Alva. Ligando estes
astros, além da beleza tanto melancólica quanto esfuziante, com que brindam o
céu, há mais um ponto envolvido pelas cortinas da nossa fraca memória. Ambos
serviram de referência para o culto à deusa Afrodite, aquela “do véu ligeiro”, do
Amor que pare, seduz, mata e devora, entre delícias e maldições. E a mortal
Safo, das profundezas de seu momento agora tão longínquo, junto com os vapores
dos seus incensos, aos céus elevou, algumas das mais belas preces a essa
divindade de muitas faces e atributos.
Conforme Enrico Prampolini,
esta poetisa, associando paixão ardente e ternura suave, sempre melodiosa e de
versos apurados, assegurou para si uma modernidade ininterrupta. Johan Huizinga
já definira a poesia como o meio mais apropriado para exprimir tudo aquilo que
é vital, ordenando para facilitar a memorização e o prazer, e nessa arte Safo
foi uma mestra, provavelmente, conforme Swinburne, a primeira que a Humanidade
conheceu.... e quase esqueceu.
"Safo" - Óleo de Charles-August Mengin - 1877
Bibliograficamente, sabe-se muito pouco sobre Safo.
Seu nome, no que chamamos "grego': Σαπφώ (Sapfó) ... Em seu dialeto local: Ψάπφω (Psápfo)).
Esta dama aristocrática nasceu, em 618 aC, em Erésos, na ilha de Lésbos. Viu-se órfã de pai aos seis anos. Casou-se com o rico Kerkílos e teve uma filha chamada Cleides. Tornou-se sacerdotisa, chegando a ser exilada duas vezes por questões políticas.
É o que se coleta da tradição.
No mais, as afirmações enveredam pelos caminhos imaginosos, assim como quando, apenas por ter sido encontrada na Sicília uma antiga imagem sua, lança-se que ali teria sido exilada.
Mesmo seus "retratos" escultóricos, datados de, no mínimo, cerca de um século após sua morte, não têm qualquer obrigatória veracidade. Os rasgos de descrição que seriam 'mais fidedignos" vêm de um papiro egípcio, que a desenhou baixa e algo amorenada, e do poeta Alcaios, seu contemporâneo, que, em linguagem envolta pelas brumas da poesia, lançou-a como
"Safo, das tranças violáceas, do doce sorriso."
Aparece também citada em outra versão deste mesmo recorte:
"Pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso."
Safo e Cleides ouvindo Alcaios - Pintura de Alma Tadema -1881
É fato que essa poetisa pertenceu ao primeiro período da poesia lírica grega, sucedendo a geração da epopéia, onde estão alocados Homero e Hesíodo. Aí, onde a tradição barda e a escrita se imbricam, ela lançou suas obras, declamáveis e cantáveis. Estas foram consideradas tão belas que chegou a autora a ser reverenciada, já na Antiguidade, como a "Décima Musa".
Iniciara-se no estudo de cantos articulados, mais conhecidos como líricos, por o bardo sempre se fazer acompanhar por uma lira, e, através de odes, elegias, cantatas, sonetos e madrigais, desvelou o Amor.
Em suas poesias-canções, decifrando nossas almas-esfinge, lavrou suas obras tecnicamente perfeitas em seu dialeto eólio, chegando a, para isso, criar sua original estrofe sáfica.

Safo e Alcaios - Pintura sobre jarro helênico do século V aC.
Safo se elevava em uma sociedade masculinizada, brandindo um Amor que vagava entre sublime e atônico, lírico e erótico, daí poder-se imaginar o quanto adentrou terrenos perigosos.
Ao trabalhar sobre temas tão explosivos, dizendo coisas que normalmente agrediriam os ouvidos e espíritos "mais conservadores", conforme Peter Green, calou suas bocas, pois o fez tão belamente quanto ninguém mais.
De fato, ler o que restou das suas poesias fornece-nos um panorama enaltecedor, onde as linhas são expressão de segredos sinceros e profundos do "eu", passeando através de infernos e primaveras interiores.
Aí, entendemos o que La Fontaine quis dizer sobre a força da busca do natural e do seu galope irresistível. E é nele que encontramos Safo, com colorido linguístico e crueza de quem não sente qualquer culpa ou vergonha de, sinceramente, Amar.
No auge da sua maturidade, fundou uma escola musical e poética, onde educou moças nobres que demonstravam sensibilidade artística, direcionando-as para o culto de Afrodite e das Musas.
Cantou o Amor e o companheirismo entre moças, gerando uma confusão mal resolvida até hoje, pois há uma homossexualidade conjecturada em sua obra "Epitalâmios".
Se para os mais isentos as indicações são insuficientes os elementos para resolver essa pendência apaixonada, os mais convencidos indicam que sua amante teria sido Erini, sua discípula.
Também se evoca que teria tido uma amante chamada Cleis (Κλεΐς). Entretanto, é voz cada vez mais clara que essa, à qual dedicou versos, teria sido sua filha.
Em um fragmento aparece:
"Tenho uma preciosa menina
bela como as flores de ouro
Minha muito Amada Cleis."
Como saber?
No final da vida, por volta de 565 aC, a Safo histórica deixara nove livros permeados pelo culto absoluto ao Amor.
Pouco crível, certamente mais um passo do processo mitificante é a versão que conta que, apaixonada e repelida pelo barqueiro Faón (Φάωνα), precipitou-se ao mar.
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O que provocou, então, a visão dominante de uma Safo homossexual?
O problema está em que os primeiros a fazê-lo, buscando assim achincalhá-la, dado considerarem tal ofensivo, foram os escandalosos poetas satíricos da Grécia do século III aC. Aquela fonte de referências turvas transformou essa poetisa necessariamente em uma homossexual ou em uma ninfomaníaca onívora, patética e risível.
Até mesmo, para reforçar seus "argumentos", quando necessário alteraram as poesias desta.
Ainda assim, permanece uma questão séria.
Por que, da totalidade da obra de uma poetisa tão respeitada pela qualidade do que disse, apesar do que disse, temos apenas migalhas? Sabe-se que, entre os romanos, a reverência aos seus versos foi elevada. Horácio estudou sua obra, no século I, mas sua citação ocorria cada vez menos, esvaía-se sua figura nas escolas, tornando-se, a partir do século III, uma raridade.
Não custa muito para entendermos o que aconteceu.
No século II, o apologista cristão Tatianus atacara suas obras severamente, e, já no século IV, Gregório Nazianzus comandou a primeira grande queima de livros de Safo.
A pancada final, que eliminou para sempre a imensa maioria das suas obras, deu-se em 1073, sob orientação do papa Gregório VII.
Impunha-se um mundo de mulheres caladas e hipocrisia, no qual não cabia Safo.
Como conseqüência, em Roma e em Constantinopla, fogueiras de dimensões impressionantes consumiram suas obras, escapando desse holocausto apenas alguns poucos textos. Estes não chegam a expressar sequer um décimo da obra sáfica.
O filósofo Heidegger afirmou que a poesia não é o sério da ação, sendo um sonho, um jogo de palavras inofensivo e ineficaz. Então, por que a obra de Safo foi tão perseguida e violentada?
Será que foi por ter sido mulher, inteligente, pagã, talvez homossexual e/ou por dizer o que quis dizer, sem medo?
Segundo Latino Coelho, de todas as Artes, a mais bela, expressiva e difícil é a da Palavra. São as outras como ministras e ela, a soberana universal. O próprio Rui Barbosa foi taxativo ao afirmar que escrever com pureza e Arte é próprio de espíritos privilegiados.
Assim foi, por certo, Safo, essa mulher, na qual a paixão atormentava e enlevava, jamais envergonhava, domando a mais sublime, expressiva e difícil das Artes.
Podemos imaginá-la com uma lira na mão, a declamar a sua expressão mais famosa:
"Amo... Daí, consumo-me..."
O tempo levou seu físico e a intolerância muitas das suas obras, afinal, conforme ela mesma afirmou:
"Como a Noite estrelada segue o Crepúsculo de róseos braços, espalhando suas trevas até os confins da Terra, assim a Morte persegue todas as coisas e, no fim, as apanha..."
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Rubens Antonio é mestre em Geologia, licenciado e bacharelado em História, bacharel em Geologia e artista plástico.
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A Utilização deste artigo é permitida, desde que citada a Fonte:
SILVA FILHO, Rubens Antonio. "Safo - A filha imortal de Afrodite."
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terça-feira, 29 de novembro de 2016
domingo, 20 de novembro de 2016
Das pétalas e dos sórdidos
Nos jornais baianos repercutiu, tratado de forma anedótica, um fato.
Em Minas Gerais, duas mulheres Maria Perez e Idalina Averzani, flagradas vivendo juntas. Foram presas pela polícia e "separadas a força"... Encontrei este caso pesquisando em jornais antigos. O pequeno recorte é do jornal baiano "A Tarde".
Sim... Já fomos ainda mais cruéis que hoje.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Unicordolino
Uma corda... Só berimbau?
Na década de 1920, Salvador viu o mecânico soteropolitano e músico nas oportunidades, Agostinho Alves de Almeida, circular com sua invenção, o "Unicordolino"... Costumava tocar em festas, em "duettos" com a pianista Clia Maxwell de Assunção.
Seus nomes sumiram no vento... assim como o "Unicordolino"...
Imagem no jornal "A Tarde" de 8 de dezembro de 1924
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domingo, 5 de julho de 2015
Apontar para onde quiser.
Já vi jogador ser olhado com cara feia por não participar.
É um passo pro patrulhamento.
É um empurrão pra perseguição.
É um estágio pra inquisição.
No quadro "Escola de Atenas", a representação do embate entre o "divino" e o "humano"... Platão aponta o céu, sinalizando o "divino", enquanto Aristóteles mostra o chão, representando o "humano" como determinante...
Com o Renascimento e o Iluminismo, o "humano" progrediu no sentido do laicismo... e do DIREITO de quem quiser apontar o céu ou o chão... ou não apontar nada... fazer o que quer... Sem forçar barras ou comentariozinhos pelos cantos de nenhum dos outros.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido
quinta-feira, 31 de maio de 2012
"Seu Brasil... Mr. Brazil..."
sábado, 26 de maio de 2012
Sobre Hipatia y la Biblioteca de Alejandría
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"Sobre Hipatia y la Biblioteca de Alejandría---"
Según el filósofo pagano del siglo VI Damascio, la maestra alejandrina era "de naturaleza más noble que su padre, y no se conformó con el saber que viene de las ciencias matemáticas, en las que había sido introducida por él, sino que se dedicó a las otras ciencias filosóficas con mucha entrega". Hipatia aprendió también sobre la historia de las diferentes religiones que se conocían en aquel entonces, sobre oratoria, sobre el pensamiento de los filósofos y sobre los principios de la enseñanza. Viajó a Atenas y a Roma, siempre con el mismo afán de aprender y de enseñar.
En torno al año 400 la filósofa se había convertido en líder de los neoplatónicos alejandrinos, y, de acuerdo a la Suda se dedicó a la enseñanza, centrándose en las obras de Platón y Aristóteles. La casa de Hipatia se convirtió en un centro de instrucción donde acudían estudiantes de todas partes del mundo romano, atraídos por su fama. Entre sus alumnos había cristianos, como por ejemplo su alumno predilecto, Sinesio de Cirene (con posterioridad obispo de Ptolemaida entre 409 y 413), perteneciente a una familia rica y poderosa, que mantuvo una gran amistad con su maestra
En plena Cuaresma, un grupo de fanáticos, dirigidos por un lector de nombre Pedro, se abalanzó sobre la filósofa mientras regresaba en carruaje a su casa, la golpearon y la arrastraron por toda la ciudad hasta llegar al Cesáreo, magno templo edificado por Augusto tras su victoria sobre Marco Antonio y convertido en catedral de Alejandría. Allí, tras desnudarla, la golpearon con tejas hasta descuartizarla y sus restos fueron paseados en triunfo por la ciudad hasta llegar a un lugar denominado el Cinareo (por su nombre, se supone que un crematorio), donde los incineraron. Aunque sigue sin estar claro si su edad era de 45 ó de 60 años
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
"A Benção, Tia Amélia!"
Trazido de "A Benção, Tia Amélia!"
de Laura Macedo, em 21 janeiro 2011, às 20:00
sítio: http://blogln.ning.com/profiles/blogs/a-bencao-tia-amelia .
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Amélia Brandão Néri (Tia Amélia)
*25/5/1897 Jaboatão, PE
+18/10/1983 Goiânia, GO
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Na Livraria Cultura de Fortaleza (CE) - onde estive recentemente –, passei horas de absoluto lazer/prazer entre discos e livros. Lançado em 2008 o livro “Vinicius de Moraes – Samba Falado (crônicas musicais)”, organizado por Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos, foi uma das surpresas agradáveis deste meu “tour” cultural, já que na época do lançamento passei em brancas nuvens.
A crônica “A Benção, Ti’Amélia” é uma das integrantes do referido livro e foi escrita por Vinicius de Moraes, em 26 de julho de 1953, a qual transcrevo abaixo. Em casa desses queridos Cattan – Ligia e Dreyfus – que eu colocaria facilmente entre os dez melhores anfitriões do Rio, pela simpatia e calor com que recebem, a sexta-feira 9 de julho adquiriu para mim uma significação toda especial, graças à presenças, entre tantos artistas e mulheres bonitas, de uma senhora a se aproximar dos 70, cuja severa beleza lembra os velhos medalhões imperiais: uma nobre cabeça emoldurada de prata e servida por uns olhos e um sorriso ainda moços e participantes.
Quero referir-me a Dona Amélia Brandão, ou melhor: Tia Amélia – e aqui peço respeitosamente a minha inscrição entre o rol de seus sobrinhos, pois já a considero mais tia minha que muitas que andam por aí. Deve-se a presença de Tia Amélia no Rio à inteligência e espírito público dessa encantadora Carmélia Alves que, numa tournée por Goiás, conheceu-a em Goiânia, onde une as prendas de figura da sociedade local às de emérita professora de piano.
Mas o que Tia Amélia é mesmo de fato é artista: artista com o largo instinto criador do boêmio, como todos os seus sobrinhos presentes naquela sexta-feira, entre os quais as figuras de Bené Nunes, Antônio Maria, Mello Moras, Bororó, Luiz Bonfá e Reinaldo Dias Leme.
Carmélia Alves tinha um avião a pegar, depois de muitos saraus em casa de Tia Amélia, e o que aconteceu foi o seguinte: Tia Amélia pegou o avião com ela.
Qual o truque de Tia Amélia, me perguntarão.
E eu vos direi, no entanto, que para ouvi-la eu percorreria facilmente um continente.
Como fiz em 1949, nos Estados Unidos, para ouvir o grande clarinetista negro George Lewis, que tocava por um dia em Nova Orleans.
Pois a verdade é que Tia Amélia é uma ressurreição de Chiquinha Gonzaga com bossas novas.
Tia Amélia só tocava clássicos. Sim, esteve nos Estados Unidos, deu concertos, fez tudo o que manda o figurino.
Mas – disse-me ela – parecia-lhe que abrasileirava um pouco os clássicos que executava.
Seu Chopin não era necessariamente Chopin: era Chopin de Nazareth, ou melhor, Chopin Brandão. Só então percebeu que seu destino não era só de interpretar, mas o de criar música brasileira.
Pós-se a compor choros e valsas, que nunca foram postos em pauta e só agora foram batizados, pois ela os designa apenas pela cronologia de sua criação, ou por uma lembrança qualquer ligada a eles.
Tia Amélia designa algumas de suas composições como “choros clássicos”.
De fato. Há no equilíbrio do complexo melódico, na sabedoria instintiva da harmonização, na unidade íntima das partes musicais, linhas bastante puras para que se as possa classificar como tal; isso, aliado à tristeza congênita, ao dengue malemolente, ao repicado brejeiro que dá ao chorinho a sua feição tão brasileira e assegura-lhe um caráter imortal dentro da nossa música semi-erudita e popular.
Estou certo que os choros de Tia Amélia – que a Continental teve a feliz ideia, que é também um acontecimento musical, de por num LP – tocarão não só aqueles ligados à saudade de um tempo de que se fez música assim, como o da gente mais nova, em que as influências estrangeiras e as sofisticações do momento vão destruindo as características brasileiras mais tradicionais.
Pois os choros de Tia Amélia transmitem as coisas mais profundamente simples: as coisas do coração. Em 1980, aos 83 anos realizou a sua última gravação, pelo selo Marcus Pereira, com o LP "A Benção Tia Amélia", interpretando 12 composições inéditas, entre valsas e choros.
01 - Choro Serenata (Tia Amélia)
02 - Mosquita (Tia Amélia)
03 - Choro Para Minha Filha (Tia Amélia)
04 - Parabéns Pra Você Zé (Tia Amélia)
05 - Maestríssimo Cipó (Tia Amélia)
06 - Bilhete Para Arnaldo Rebello (Tia Amélia)
07 - Conversando Com Minha Irmã (Tia Amélia)
08 - Medalha Com G (Tia Amélia)
09 - Choro Para Fernanda (Tia Amélia)
10 - Maria Alice (Tia Amélia)
11 - Penazziando (Tia Amélia)
12 - Para Meus Netos Bisnetos e Tetraneta (Tia Amélia)
Na ocasião, recebeu calorosa crítica do jornalista José Ramos Tinhorão, que sobre ela, escreveu: "Assim, quando se ouve o som atual de Tia Amélia, pode-se dizer que é toda a história do piano popular brasileiro que soa em sua interpretação".
Vale a pena conhecer mais sobre a vida e obra de Tia Amélia. Para os interessados deixo dois links: Memorial da Fama e Dicionário Cravo Albin.
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Fontes:
Livro:
- "Vinicius de Moraes – Samba Falado (crônicas musicais)", de Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). – Rio de Janeiro: Ed. Beco do Azougue, 2008.
Sites:
- Dicionário Cravo Albin; Loronix; Instituto Moreira Salles; Memorial da Fama. .
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Extraído de "Todos os dias para elas"
de Sabbahana Cavalcanti em 08/03/2012
sítio: http://www.tvjaboatao.com.br/blog/62
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"Marcada pela conquista, Jaboatão dos Guararapes também é referência nesse espaço de mulheres que influenciaram o estado pernambucano em diversos aspectos, inclusive no âmbito cultural.
Maria Amélia Brandão Nery, mais conhecida como Amélia Brandão, é uma delas.
Nascida no município, a talentosa instrumentista e compositora, desde criança, sempre se interessou pela música e aos doze compôs a valsa Gratidão.
Casou-se com um rico fazendeiro, enfrentou sérios problemas financeiros – o que foi a causa do colapso do seu marido, que veio a falecer.
Teve que vender tudo o que tinha, incluindo seu bem mais precioso: o piano.
Mas sua carreira começou a alavancar depois de um recital de caridade. Trabalhou em diversas rádios, e emissoras.
Tia Amélia, nome dado carinhosamente por Roberto Carlos, foi a segunda mulher mais importante do Choro, antecedida apenas por Chiquinha Gonzaga.
Dentre os belos sambas, valsas e choros que compôs, destacam-se:
- Dois namorados
- Chora coração
- Obrigada Goiás
- Bordões ao luar (nome que foi escolhido pelo poeta Vinícius de Moraes)
- As valsas: Sorriso de Bueno, Cavalo marinho e Carmélia.
A musicista faleceu no estado de Goiás em 1983."
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
"The Performance That Changed My Life"
domingo, 20 de maio de 2012
"Ao mestre Artista plástico sergipano Ailton Lima"
Por José Milton Menezes
Em 10 de setembro de 2011
Trazido de
http://www.homemcriativo.com.br/
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O cenário?!…
Não importa.
A mente humana é uma bomba–relógio de efeito espontâneo ou retardado.
Explode em qualquer cenário ambiental.
Mente equilibrada?! Não existe.
Há casos em que explodimos, por mais equilíbrio que tenhamos.
Para que não ocorram constantes distúrbios espontâneos de implosões ou explosões mentais, torna-se necessário o cultivo do gozo emocional, pois somos essencialmente “animais” sensitivos.
Detemos um maior percentual de percepção visual, seguida da auditiva, olfativa e sinestésica.
A contemplação estética, seguida da reflexão crítica de uma obra de arte ou produto cultural de linha positivista, far-nos-á sentir sensações de tranquilidade e estar em paz conosco (sistema bio-espiritual) com o próximo e com o mundo.
A produção artístico-cultural em qualquer linguagem (dança, literatura, arquitetura, teatro, música, artes plásticas, cinema, vídeo, fotografia…), deve conscientemente ser absorvida por ser tão vital ao nosso sistema orgânico, quanto o mais nutritivo doas alimentos vitamínicos.
Vale lembrar que aquele que percebe e contempla o belo sorri, relaciona-se com facilidade e com o todo natural ou artificial... raramente sente disfunções orgânicas que provoque desequilibre seu psiquê.
Os meios de comunicações emitem informações em linhas de variadas freqüências emocionais.
Cabe a nós, fruidores, seleciona-las, retendo as mais coerentes à nossa percepção crítica, ante o contexto sociológico.
Dentre as propostas culturais que visam passar ao observador mensagens estéticas positivas, podemos citar ( ) um programa com variadas linguagens artísticas, comandado pelo perceptivo( ) que não deixa o astral cair. Nos induz ao gozo visual.
E, quando as células de nosso organismo batem palmas de alegria... e sentimo-nos tão bem que vemos pombas brancas onde quer que estejamos.
A pomba branca é o símbolo da pureza… da paz…
Era o carro-chefe temático das obras de Arte do artista plástico Ailton Lima, quando em vida. Foi um sergipano, professor da Escola de belas Artes da UFBa, Mestre em Arte-Educação pela "The University of Kansas" (EUA), que dedicou sua vida à causa da paz.
Utilizava sua refinada técnica de pastel seco (espécie de giz colorido) sobre papel para tranqüilizar-nos.
Suas figuras humanas, geralmente pintadas em verde, aparecem em preto branco, em respeito ao mestre–artista que se foi para um recanto de paz etérea.
São figuras reflexivas de olhares súplices.
Parecem convidar-nos a uma viagem íntima, ao âmago de nossa paz interior.
Esse magnetismo visual nos induz a embarcar nessas imagens tranquilas, mesmo que tenhamos que transpor os arames farpados da vida…
É o domínio da paz sobre a guerra que nos inclina à reflexão… .
quarta-feira, 11 de abril de 2012
"A Widow's Story: A Memoir" por Sonia Nolasco

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"A Widow's Story: A Memoir"
por Sonia Nolasco
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"Meu marido morreu, minha vida desmoronou", escreveu a autora americana Joyce Carol Oates em seu recém-lancado A Widow's Story: A Memoir. É um relatório em carne viva, com detalhes muito pessoais, de sua perda dolorosa e de seus esforços para sobreviver aos meses que se seguiram à morte súbita do marido, o editor literario Raymond Smith. Eles foram casados 47 anos.
O livro começa em fevereiro de 2008 quando Ray (como o chamavam) é hospitalizado e diagnosticado com pneumonia. Em uma semana ele se recuperou, e já ia voltar para casa. Mas de repente teve uma recaída tão forte que Joyce foi chamada ao hospital no meio da noite. Quando chegou, Ray estava morto. Não de pneumonia. Tinha apanhado uma infecção hospitalar virulenta.
Joyce, totalmente despreparada, reagiu como tanta gente que perde uma pessoa querida de repente: não quis aceitar, culpou-se por não ter chegado a tempo, "Eu não estava lá com ele, para confortar, tocar, abraçar". Perguntou à enfermeira o telefone de uma casa funerária e teve como resposta: "Procure nas Páginas Amarelas". Pela primeira vez, Joyce sentiu-se desamparada.
Mais tarde, ao recomeçar seu diário, como que por instinto separou os diversos aspectos da sua personalidade, entre eles a escritora e a viúva. Passou a se referir a Joyce Carol Oates, JCO, como a autora capaz de tomar notas para um livro, e, a ela mesma, como viúva, Joyce Smith, incapaz de escrever sequer "Obrigada" num cartão aos amigos que tinham mandado condolências.

Joyce descobre que a dor profunda pode causar uma crise de identidade. "É verdade, eu era escritora. Mas agora não sou. Agora não sou coisa alguma. Legalmente, sou 'viúva'. Além daí, não tenho certeza de existir". Adiante, referindo-se à famosa autora: "JOC não é uma pessoa, nem mesmo uma personalidade, mas um processo que resultou numa sequência de textos".
Chocada com a descoberta de sua dualidade, Joyce confessa que não entende como levou uma vida serena ao mesmo tempo em que criava personagens complexos, sombrios, até perversos, em enredos repletos de violência e sexualidade.
Seu refúgio passa a ser a própria cama, no lado que Ray ocupara. Ali, Joyce tenta recuperar o passado recente escrevendo notas em pedacinhos de papel. Aos poucos reuniu o que se tornaria o livro mais confessional e mais pungente que JCO, como ficcionista, jamais ousou produzir.
No mundo literário, foi surpresa que ela descrevesse de forma tão visceral a maneira como enfrentou a morte do marido. Joyce Carol Oates, 73, é considerada um fenômeno de produtividade, a mais prolífica dos autores americanos. Publicou cerca de 120 livros: mais de 50 romances, 34 coletâneas de contos, e centenas de ensaios e resenhas literarias, além de noveletas, peças de teatro, e livros para crianças.

Mas Joyce não abordava temas pessoais. Entretanto, naqueles meses sombrios de 2008, a não-ficção surgiu naturalmente. É seu primeiro memoir. A prosa é bastante diferente do seu estilo em ficção ― compacto, seguro, e cuidadosamente editado. No memoir, palavras e ideias se repetem demais; frases desconexas se atropelam; traços e vírgulas proliferam; sentenças não terminam, se esvaem em pontinhos.
As características mais relevantes da obra de Joyce ― sutileza, percepção, e humor mordaz ― exibem nesse relatório de vida e morte, amor e dor, um retrato honesto da autora. Seu memoir revela não só uma pessoa extremamente inteligente, mas também muito fragil e transtornada.
Joyce não escreveu sobre seu longo casamento, mas sobre os demônios que a perturbaram no final da jornada. A autora casou-se aos 22 anos de idade; Ray tinha 30. Os dois estavam ainda na universidade; conheceram-se e casaram em três meses, e foram felizes para sempre.
Segundo Joyce, foi um casamento baseado em ternura, devoção mútua, cuidado um com outro (Joyce o protegia de tudo que fosse "perturbador, deprimente, desmoralizante"). Não brigavam. Não procuravam muito a companhia de outras pessoas. Não bebiam nem fumavam. Gostavam de ler, escrever, cultivar o jardim, ouvir música, jantar juntos. Ela descreveu o simples prazer que era compartilhar o cotidiano com seu marido, e finalizou: "Perdi a felicidade da vida doméstica, sem a qual os pequenos, ou até colossais triunfos da 'carreira' são superficiais". Sua grande preocupação é não saber viver sem Ray.
Curiosamente, há um ano ela se casou de novo, com um neurocientista que pouco tem em comum com o meio literário. Segundo dezenas de perfis de Joyce e Ray, publicados nos últimos 40 anos, o casal era amoroso e muito tradicional. Mas, nessa obra, o leitor é informado de certas lacunas misteriosas.
Joyce declara que Ray nunca leu seus romances: "Leu alguns de meus ensaios e resenhas. Ray era excelente editor. Mas não leu a maioria de minha ficção. Isso poderia indicar que Ray não me conheceu inteiramente ou, até, num grau significativo, parcialmente. Por quê? Houve várias razóes. Acho que me arrependo disso".
Seu arrependimento principal é não ter lido os originais do único romance, inédito, de Ray. No início do casamento, ela conta, Ray estava trabalhando num romance, Black Mass, começado antes dos dois se encontrarem. Joyce nunca pediu para vê-lo. Após a morte de Ray, e muitos dias de depressão e insônia, ela leu o manuscrito.
Deparou com fatos que desconhecia de Ray. Segredos constrangedores. Teria sido uma espécie de autobiografia? O personagem principal é um padre que enfrenta o desafio de renunciar à sua vocação e casar-se com uma jovem e talentosa escritora que precisa de proteção. Diante disso, Joyce se pergunta: "Terei eu realmente conhecido meu marido? E até onde permiti que ele me conhecesse?".
O relato sincero de Joyce mostra Ray como um marido doméstico que jogava o lixo fora, cuidava do jardim, ficava em casa enquanto JCO viajava para fazer conferências ou promover seus livros. No quase anonimato, Ray facilitou a carreira brilhante de Joyce, permitiu que ela desse vazão à sua enorme criatividade.
O leitor então percebe que, de fato, Ray não poderia competir com ela. Não saberia editar a ficção de JCO. Mas fez muito mais ao sacrificar uma possível carreira para ser o companheiro protetor do qual Joyce tanto dependia.
Cada viúva, viúvo, que ler A Widow's Memoir (Editora HarperCollins, 415 págs., US$27.99) certamente vai se reconhecer na angústia de Joyce. O texto tem o mesmo tom melancólico que permeia a maioria de seus romances. Mas, aqui, a emoção completamente solta de Joyce parece denunciar a enormidade da dor que se sente com a perda do cônjuge. Isso talvez choque aos que preferem emoções contidas, mas alivia os muitos outros.
As declarações da autora sugerem que sua vida interior é tão tempestuosa e sofrida quanto a de dezenas de seus personagens. É impossível não se comover com a descrição de Joyce dela mesma ajoelhada no chão do banheiro, procurando, desesperada, a pílula de antidepressivo que caiu.
Fácil se identificar com as situações de frustração, raiva, desnorteamento, e até humilhação que afligem a mulher que acaba de perder o marido. Ao mesmo tempo, é animador poder rir com a fúria de Joyce ao passar aspirador de pó na casa inteira só para quebrar o silêncio, e ao descobrir que seu gato urinou no atestado de óbito de Ray.
A tristeza de Joyce se mistura a sentimentos confusos de remorso e "culpa devastadora". Por que deixou Ray num pequeno hospital, em Princeton, e não o levou a outro mais sofisticado, em Manhattan? Com rancor, dirige-se a Ray: "Você arruinou nossa vida!". Viver lhe parece insuportável. De repente, sua vida deixou de ter significado. Fora-se o homem que era o centro de seu mundo. Joyce perdeu o desejo de continuar a jornada sozinha. Só conseguia dormir com tranquilizantes; não tinha apetite algum; e sentia seu espirito de luta definhando na medida em que a vontade de se suicidar parecia cada vez mais atraente: "Suicídio promete uma boa noite de sono, sem interrupções. E sem dia seguinte".
Naqueles momentos negros, o que salvou Joyce foi sua habilidade de se transformar em JCO, a autora, apenas. Passou a viver o personagem, uma escritora com a missão de anotar os acontecimentos, e planejar o que ela sabia fazer melhor, um livro. Nas anotações diárias, foram tomando peso suas grandes amizades, e a paciência com que a ajudaram a atravessar aqueles primeiros meses. Um dia Joyce até observou o humor no conselho da escritora Gail Godwin: "Sofre, Joyce. O Ray merecia". Seu próprio senso de humor renasceu: "Estou pensando em imprimir numa camiseta, 'Sim, meu marido morreu. Sim, estou muito triste. Sim, é muito simpático você me oferecer condolências. Agora, vamos mudar de assunto?'" .
A memória de Joyce é excepcional. A estrutura do livro lembra um caderno de recordações de adolescente. Fatos e sentimentos se alternam abruptamente: entre trechos de e-mails e de cartas de simpatia, reflexões, memórias do passado distante, cenas recentes relembradas em detalhes, visões alucinatórias, o obituário publicado no New York Times, Joyce interpreta (em itálicos) a voz da "viuva", na terceira pessoa, para se distanciar do que confessa sobre sua culpa, para criticar os médicos, e extravasar a irritação que lhe causam as cestas de frutas e alimentos (presente de condolências, em pequenas comunidades dos EUA): "Por que me mandam isso? Será que pensam que chocolate com trufas, patê de foie gras e linguiça picante vão aliviar meu luto?".
A morte de Ray Smith, 77 anos, editor do jornal literário Ontario Review, ocupa cerca de 60 páginas do livro. O que acontece depois? Esta também é a pergunta da autora. Ela explora o infinito do depois. Em 2005, um memoir semelhante, Year of Magical Thinking, de Joan Didion, tornou-se best-seller, muito admirado pelo tom antissentimental e por sua concisão (227 paginas). Em contraste, o de Joyce é esparramado e parece ter sido elaborado rapidamente, sem folêgo, as frase separadas por tracinhos em vez de ponto, repletas de palavras em itálico e pontos de exclamação em série. O sucesso do livro de Joyce (já nas listas de mais vendidos) sugere que quem perdeu o conjuge recentemente prefere assim, porque repercute o caos emocional de sua vida.
O que separa o memoir de Joyce do de Joan Didion é a possibilidade concreta de final feliz: um belo dia, geralmente quando ela está envolvida numa tarefa costumeira, a viúva percebe que a vida seguiu seu curso normal, e esse poder da vida, sozinho, alivia o sofrimento. Para Joyce, aconteceu quando ela limpava um entulho antigo e achou os brincos que tinha perdido. No epílogo do memoir, ela escreveu: "Esta é minha vida. Absurda, e ainda assim imprevisível. Não é absurda porque imprevisível, mas imprevisível porque absurda. Perdi o significado de viver, e o amor de minha vida, mas ainda posso encontrar pequenos tesouros no lixo".
Para ir além.
Sonia Nolasco
Nova York, 4/4/2011
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Importado de:
"Digestivo Cultural"
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=403&titulo=A_Widows_Story:_A_Memoir
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
"Estrelas"... por Oswaldo Montenegro

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"Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das Estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar...
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do Seu medo
Eu conheço inteira Sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a Tua alegria não fosse bastar...
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora... Você cantará..."
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010
"Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço"
Copiado do blog;
http://www.amalgama.blog.br/11/2010/mayara-petruso-nordeste/
"Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço"
por Raphael Douglas
“Para não aceder à humanidade, as
pessoas se atiram nas profundezas sombrias
da doutrina zoológica que é o racismo.”
Franz Kafka
por Raphael Douglas – Vou citar uma expressão das ruas que ouvi ontem quando um amigo leu as ultimas manifestações pós-eleição no twitter. Perdoem-me a citação. Disse: “Se filho da puta voasse, seria impossível ver o céu no Brasil.” O proferiu sem muita eloqüência, mas quis dizer que não acredita que toda a população nacional tenha ideias como as que veremos abaixo, afinal, restariam pessoas coladas ao chão tentando observar o azul do céu obnubilado pelo preconceito. Concordo com ele. É óbvio que existem muitos indivíduos que pouco se importam com as diferenças regionais, de sotaque ou mesmo da renda per capita da cidade onde se vive.
A moça em questão responsabiliza categoricamente o Nordeste pela vitória de Dilma Rousseff. Todavia, como afirma a redação da Rádio Criciúma, “as postagens dos internautas responsabilizando o Nordeste pela vitória petista, mostram seu desconhecimento dos números da eleição, já que se o Nordeste fosse excluído dos cálculos, Dilma ainda venceria Serra, com uma diferença de cerca de 1,3 milhão de votos.” O fato de buscar a desalienação das informações rasas é um bom exercício ao espírito. Não tiraria nunca como informação universal que todos os paulistanos exercem a conduta da senhorita Mayara Petruso. Aliás, os paulistanos que conheço são gente de caráter altivo e admirável. A amizade e a admiração transcendem qualquer diferença, aproxima pessoas. A pétrida Petruso já pediu desculpas. Mas a pedra que ela atira é apenas mais uma que ajuda a erguer a montanha da infâmia. Pedir desculpas não resolve fundamentalmente a questão que existe muito antes do twitter nascer.

Quando eu adquiri consciência, ou seja, quando obtive as primeiras percepções de mim mesmo, me foi dito que eu era homem, brasileiro e nordestino. Quando pequeno, o juízo de valor estava distante então não entendia o que o último predicado queria dizer. Pois bem, o sucesso negativo, mais uma vez, nas redes sociais é o tratamento de um ente que sinceramente não conheço. Chama-se: Nordeste. E o pior, dizem que é onde eu vivo. Há anos me amotino e me questiono se não sou esquizofrênico. Penso em procurar ajuda especializada, pois creio estar projetando ao meu redor um mundo que não corresponde ao que ele é de fato. Pois, quando acordo de manhã e falo com meu vizinho, ele não passa fome, aliás, pelo que vejo de suas posses materiais, nem ele e nem sua geração futura passarão. Saio à rua e dou bom dia ao segurança da esquina. É nordestino, trabalha como segurança (no Nordeste) e tem um grau de alfabetização relativamente sofisticado. Todos no Nordeste são alfabetizados? Não, eu sei. Mas o segurança sabe mais dos presidentes da república que passaram pelo Brasil do que eu. Vou trabalhar: dou aulas para um monte de nordestininhos. Não são ignorantes e não passam fome. Aliás, pelo que vejo, não passarão. Nenhum deles faz uso das bolsas assistencialistas atuais. Os donos da escola são nordestinos especialistas em técnicas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento de futuros profissionais nordestinos (e não só para o Nordeste).
No dia 31 de outubro de 2010, fui, como qualquer nordestino ou brasileiro, exercer meus deveres de cidadão. Presenciei vários eleitores de Dilma Rousseff, eleita devido a popularidade de um Nordestino, que não chegavam montados em jumentos ou usavam chapeuzinho de couro. Vinham em ônibus bem conservados, em carros novos, alguns até muito caros e suntuosos. Pude observar também um bom número de serristas, que por sinal, na cidade em que moro, ainda que não sejam a maioria, têm muito gosto de votar em José Serra e seu partido. Serra é muito respeitado entre os ricos e super ricos. O curioso é que os super ricos nasceram aqui. Falam PRÉSIDENTI E ÉLÉIÇÃO. Nordestinos são entes submetidos às leis e possuem escolhas livres, logo, são seres humanos. Sendo assim, é possível que votem ou não em Serra ou em quem quer que seja.
Pois bem. Votei e fui comer numa multinacional insuportavelmente lotada de nordestinos. Não passavam fome, mas ao contrário pagavam 32 reais num simples Big Apple. Então quer dizer que o Nordeste, na visão de quem escreve agora, é a maravilha do mundo? Calma. Ao sair da multinacional, passando por um viaduto, construído por nordestinos e para nordestinos (e visitantes) circularem pela cidade, observei que a favela de sempre está lá: cheia de nordestinos e eles não estão bem. Sofrem com violência e abandono do governo. Assim como há “Brasis”, há nordestes. Assim como no Nordeste há dinheiro, há a completa ausência dele.
Mas caminhemos. O que me assusta é a maneira como chega a ideia de Nordeste fora do Nordeste. Parece haver um Nordeste medieval sendo citado nas mídias. Chão rachado, ausência de água e recursos simples. É como se o lugar, na sua totalidade, vivesse apenas mendigando commodities. E o esquizofrênico que vos fala, sempre que vê o Nordeste, descobre oportunidades profissionais, olha pela janela de casa e enxerga arranha-céus, bairros tradicionais, parques públicos bem arborizados e saudáveis, classe média, baixa e pessoas sem oportunidade, esquecidas pelo governo que é formado, também, por nordestinos. Como em qualquer lugar do Brasil, no Nordeste há a pitoresca convivência do medieval com o moderno e tecnológico, do paupérrimo com o fetiche do luxo. Brasil que nada mais é do que mais um país da subdesenvolvida América Latina. Paulistanos, Gaúchos, Cariocas, Paraenses, Baianos, Capixabas, Potiguares, entre outros, participam de um mesmo predicado: brasileiro.
E de quem é a responsabilidade da imagem desse tal Nordeste paralelo? Primeiro, e sem dúvida, dos políticos nordestinos. Mas por quê? Simples, A indústria da seca! Seca essa que só vi umas duas vezes na vida. Essa indústria enche os bolsos dos políticos tortuosos. Ela existe, é óbvio e além de óbvio é triste. Coisas da facticidade. Mas, por Deus! Há água no lençol freático dos sertões! Por que não gastar milhões e fazer a água emergir? Não interessa aos “coronéis”. É muito mais oneroso tratar a favelização, do que a manutenção do povo em sua terra natal. Como diria Aristóteles, bem antes dos geneticistas, um erro no início, acarreta um erro ainda maior no final.
A culpa não é expressamente da mídia, ainda que seja ela a responsável por vincular imagens e estereótipos. Chega desse escandalozinho contra a afundação (sic) Roberto Marinho, como se ela fosse réu todo o tempo. E olhe que não vejo essa rede de TV há anos, não aprovo seus métodos e filosofia. Enfim, uma coisa importante é começar a trabalhar fenomenologicamente o conceito de nordestino. Os humanos que vivem amontoados nas periferias do Rio e de São Paulo não são o conceito universal de nordestino. Eles têm em si certos predicados essenciais. Mas não vivem mais no Nordeste, assumiram o ethos de outro lugar. Quando a Petruso pede que se afogue um nordestino, ela o pede em favor de São Paulo. Mas São Paulo não é Nordeste. Pelo que sei, a cidade supracitada abriga um monte de gente que no Nordeste não teve chance alguma. Fiquei extremamente ofendido numa das viagens que fiz e não fui considerado aparentemente um ente nordestino. Motivo alegado? Sendo bem direto e sem falso moralismo: sou branco, cara de europeu (libanês, árabe ou judeu, foi o que ouvi), tenho 1,87 cm de altura, não passo fome, estava fazendo turismo e gastando dinheiro. Essa é a evidência, a informação positiva. Logo, deve haver o conceito negativo e esse tem sido tomado erroneamente como fator universal. Achei absurdo o desconhecimento histórico. A genética de onde venho obviamente é portuguesa, com despejos genéticos holandeses, da forte presença negra, indígena, árabe, devido ao passado da união ibérica, em suma, mestiça por inteiro: que belo! E não sou 1% menos nordestino por isso.
Então vamos lá. Conceito obtido por negação. Ser nordestino é: passar fome, não ser branco, ter uma altura inferior a 1,65 cm e ter inscrito na genética da existência que a migração é o fator necessário para melhorar de vida. Sejamos honestos. Esse papo furado de região inferior é uma balela. No Nordeste existem psicopatas, estelionatários, doleiros, criminosos, colarinho branco e, também, muito preconceito reverso. Discurso de etnia oprimida, além de versar sobre algo que não existe, não justifica ações como essa:

Observaram? Nordestinos também são preconceituosos. É um déficit ontológico. Atinge qualquer um. Longe, muito longe de ser um lugar perfeito, o Nordeste e suas capitais nada mais são do que megapixels na pobre América latina. Tristes trópicos! Diria o mais recente intelectual finado. No fim das contas somos todos iguais quando vistos desde fora. Para um norte-americano médio, por exemplo, não somos muito diferentes dos nossos vizinhos, ou seja, a “nata do lixo”. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Buenos Aires, Santiago, La Paz, Bogotá, San José, San Salvador, Cidade da Guatemala, Montevidéu, Caracas, Manágua, Tegucigalpa, Panamá, Assunção, Lima, entre outras, são America Latina e ponto. Deste ponto de vista, não parecem ridículas essas refregas regionais? O que falta para o Brasil se conhecer autenticamente? Até onde é possível perdoar a ignorância, aliás, a desinformação? Como iniciar um projeto de veiculação da imagem das vidas reais nas cidades brasileiras? A quem interessa que o raso e o superficial continuem pedagozigando nossa ideia de Brasil?
A companheira Mayara certamente agiu emotivamente devido à força da história. Presenciou seu candidato em derrocada. Mas é aí que conhecemos os homens cautos e os desmedidos, os racionais e os estomacais. Na emoção, ela honestamente transcendeu a hipocrisia e vomitou as substâncias que permeiam seu organismo. É uma preconceituosa. Ricardo Timm, grande pensador nacional, diz que “o preconceituoso é a mais precária das criaturas: qualquer um, qualquer salafrário inteligente, qualquer ideologia delirante, faz dele uso e abuso. Sonhando a vida inteira em não ser mais do que lixo, o preconceituoso se realiza quando é transformado efetivamente em lixo para a combustão da exploração e violência contra o outro. Essa é sua única festa, a única a que se permite; não ser, no fundo, nada, é seu sonho mais recôndito, e habitar uma região onde a esperança possa alcançá-lo é sua concepção de porto seguro. Morto-vivo, capitulou diante do mundo; fugiu da história para não ter de entender nem ao menos sua própria história. A atitude preconceituosa é a negação da inteligência, ou, o que dá no mesmo, a negação da abertura ao outro.”
Preconceituoso é aquele que discrimina. Normalmente, quando nos deparamos com o desconhecido, ou com o parcialmente conhecido, cometemos generalizações apressadas, induzimos inadvertidamente. Sim, é um movimento natural do intelecto mover-se por concepções prévias. Mas, como eu disse em outro texto, é inteligente notar que existe uma diferença abissal entre pré-conceito e discriminação. Toda indução é abusiva e toda dedução, incerta. Há uma ideia de Nordeste obscurecendo o que é o Nordeste Real. Não façamos isso com o Nordeste, não façamos isso com o Brasil.
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a primeira imagem foi retirada do blog de Renato Rovai
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
A Terrível Luminescência da Pala

Por Rubens Antonio da Silva Filho
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Comecemos pelo princípio... Uma canção. Uma música. Uma letra. Keith Reid, que, junto a Matthew Fisher e Gary Brooker, coautorou a letra, afirmou, quando inquirido pelos fãs, sobre o significado da canção, algo que foi contestado por estudiosos. Ele disse que sua música "é como olhar uma pintura abstrata". A declaração de alguns críticos é que a colocação do autor não é entendida como válida.
Entretanto, é precisamente o que parece, uma Pintura... sonora. Talvez o melhor caminho seja aventurarmo-nos pelo traço de Pintura Surreal.
Reid afirmou que ouviu, em uma festa, alguém dizer a uma mulher: "You've turned a whiter shade of pale..." A partir daí, derivou tudo.
O resultado foi a bela composição em que Brooker "desenha" uma claríssima evocação da "Ária na Corda Sol", de Johann Sebastian Bach.
O começo da composição remete a alguém descrevendo a vertigem que lhe dá no voluteio de uma dança. É um Fandango, uma dança de origem espanhola, tradicionalmente cantada e sapateada, sendo o "bate pé" levado até num ritmo hipnótico. O protagonista da canção começa a se sentir tonto, enjoado. A vertigem o toma, enquanto a alusão à embriaguez aparece na forma de uma bebida que chega, servida por um garçon.
A embriaguez é uma referência básica para o acesso à visão, e ela se faz, nesta letra de canção através da dança, do volteio e da bebida. Conforme Brandão (1986, p.97), a Pitonisa ou Pítia, sacerdotisa maior de Apolo, "possivelmente, em estado de êxtase e entusiasmo [...] respondia às consultas que lhe eram feitas" . Era assim que ela "balbuciava palavras entrecortadas, que eram recolhidas pelos sacerdotes. Essas palavras incoerentes da pitonisa eram redigidas, a princípio, em verso hexâmetro e, mais tarde, também em prosa, e oferecidas como resposta às consultas formuladas". E vê-se esse protagonista diante de um velho Moleiro, que, em alguns contos e romances, é uma referência para um sábio, um mago, um astrólogo ou adivinho.
O auge da música, a última frase, é quando o narrador vê o brilho de ou da “pale”... Jogue-se fora a tradicional tradução de “pale” para “pálido”... E releiam como o "brilho embranquecedor da pala". Porque a palavra “Pale” traduzida corriqueiramente por “pálido”... é um equívoco.
Poucos evocam a ligação da palavra “Pale” com o “Vestal Virgins” anterior.
A Pala é uma peça de vestuário.
A Pala, o Pálido ou Alvo era, na Antigüidade Clássica, também é uma espécie de véu, um separador entre dois mundos.
Na Roma Antiga, a Pala era, especialmente, o manto da Sacerdotisa Vestal maior.
No contexto de embriaguez, com nuances claras de evocações de transcendência, a “Pale” tem que ser lembrada não como “pálida”, mas como um paramento, modo de véu ou o Manto Sagrado usado pela maior sacerdotisa de Vesta, ou mesmo podemos pensar a “Pàlida” como a própria sacerdotisa maior... Vesta era a deusa romana do Lar, filha de Cronos - Saturno, deus do tempo, e de Réa - Géa, a Terra. A ela também remete o comentário na mesma estrofe sobre as virgens vestais.

Os romanos tinham, à entrada da casa, um recinto que era dedicado aos Lares, entidades benéficas da casa, com esculturas mostrando seus ancestrais. Havia um altar nesse ambiente. Pouco resta deles no "living room", mas procure que acha... fotos de família... às vezes, naquele ambiente de recepção e transição para o nosso mundo particular. Muitos dos emigrantes europeus que chegaram ao continente americano, no século XX, trouxeram consigo a tradição que foi desaparecendo do consciente e permanececendo só em rudimentos da memória. de uma “pala”, a sala de recepção... que tinha elementos predominantemente... “pálidos”, ou seja, claros, preferencialmente brancos...
Releiam a música. Releiam junto a melodia. Sintam que ela é como o caminho suave de uma marcha das vestais, com seus mantos brancos, em um templo, que vai tomando o narrador.
Creio que, por esse caminho, podemos chegar perto da transcendência que essa melodia provoca... e que também está quase oculta no texto.
Ao começar a música A Whiter Shade Of Pale, anuncia-se a dança de um Fandango. Esta é uma dança de origem espanhola, tradicionalmente cantada e sapateada, sendo o "bate pé" obrigatório nas modalidades tidas como mais rústicas, ou mais preservadas. Possui um compasso ternário (3/4) ou binário composto (6/8), em andamento forte, marcado pelo som das castanholas, com o acompanhamento de cordas.
É sob tal som que o par desliza e volteia, e o protagonista da canção começa a se sentir tonto, enjoado. A vertigem o toma, enquanto a alusão à embriaguez aparece na forma de uma bebida que chega.
A embriaguez é uma referência básica para o acesso à visão, e ela se faz, nesta letra de canção através da dança, do volteio e da bebida. Conforme Brandão (1986, p.97), a Pitonisa ou Pítia, sacerdotisa maior de Apolo, "possivelmente, em estado de êxtase e entusiasmo [...] respondia às consultas que lhe eram feitas" . Era assim que ela "balbuciava palavras entrecortadas, que eram recolhidas pelos sacerdotes. Essas palavras incoerentes da pitonisa eram redigidas, a princípio, em verso hexâmetro e, mais tarde, também em prosa, e oferecidas como resposta às consultas formuladas". E vê-se esse protagonista diante de um velho Moleiro, que, em alguns contos e romances, é uma referência para um sábio, um mago, um astrólogo ou adivinho.
É nesse mesmo instante que o narrador vê, ao olhar para a sua acompanhante, o "brilho embranquecedor da pala".
A Pala era um paramento, modo de véu ou o Manto Sagrado usado pela maior sacerdotisa de Vesta, a deusa romana, uma das maiores referências dentre as divindades cotidianas romanas. De fato, conforme recorda Barbara Abramo (1995), ela era a verdadeira personificação dos Lares. Neles nos quais o fogo íntimo queimava, cozinhando a comida de cada dia, sendo sua referência esse mesmo fogo, que tinha representado em seu templo, daí presidindo os destinos de cada família e, por extensão, da cidade de Roma como um todo.
A deusa Vesta e sacerdotisas vestais.Esta filha de Cronos - Saturno, deus do tempo, e de Réa - Géa, permaneceu virgem e casta apesar dos muitos pretendentes. Foi, por tal, presenteada por seu pai com a honra de ser a deusa mais venerada nas famílias, protegendo a castidade das filhas e esposas, tão prezada e importante para gregos e romanos.

Assim, era extremamente comum cada casa ter uma estátua ou estatueta de Vesta, que se apresentava segurando uma lâmpada, que simbolizava o fogo eterno, tendo um burro a seu lado, que um dia a protegeu de um estupro.
De fato, os elementos referenciais de divindades tidas como caseiras eram extremamente prezados em Roma. Nos átrios das casas aparecia, com freqüência, uma capela dedicada aos lares, divindades protetoras domésticas, geralmente dominado por um pequeno fogo ritual. Era a lareira, próximo à qual estavam os bustos dos antepassados. E Vesta acabava atuando como uma protetora dos penates, que eram almas dos familiares antepassados que atuavam protegendo as suas famílias, os seus descendentes.
Brandão (1986) indica a origem do seu nome na mesma família etmológica da Héstia grega, ambos os nomes vindo do indo-europeu ues, que significava "residir". Enquanto manifesta como Héstia, essa divindade era, no dizer de Brandão (1986), "mais um conceito abstrato, a Idéia da Lareira, do que uma divindade pessoal, o que explica não ser a grande deusa necessariamente representada por imagem, uma vez que o fogo era suficiente para simbolizá-la".
Ruína do templo das vestais, em Roma.Nessa civilização, tão apegada aos elementos de domínio particular, Vesta tinha importância fundamental e a sua instituição como elemento do próprio Estado foi assumida pelo segundo rei de Roma Numa Pompilius. Este fora, portanto, o sucessor direto de Rômulus, tendo gerido aquela então cidade-estado entre 715 aC e 673 aC.
As primeiras sacerdotisas foram nomeadas por Numa, chamavam-se Canuleia e Tarpeia. Mas tarde, foi Sérvius que adicionou mais duas.
O latim Vestale conduziu ao nosso vocábulo Vestal, que, além de ligações com a fonte, isto é, referência à deusa Vesta, ganhou contornos de Mulher "muito honesta", "casta ou virgem", "semelhante às vestais", "virginal". As Virgens Vestais aparecem na Bibliografia citadas como seis (Hermes Mirabel), dez (Brandão, 1986) ou dezesseis, outros que eram quatro no início, tornando-se seis mais tarde. De qualquer quer forma, estavam locadas em um pequeno mas importantíssimo templo de Vesta em Roma. Nele realizavam tarefas domésticas simbólicas, referenciando o apoio do Estado a seus elementos mais simples, que se revestiam de grande importância.
Acima de tudo, tomavam conta do fogo sagrado que ardia continuamente num templozinho circular, localizado no Fórum romano.
Escolhidas nas famílias patrícias, tinham, quando das suas eleições, entre os 6 e os 10 anos, sendo conduzir meninas mais novas ou velhas que isto à função sacerdotal considerado ilegal.
Havia todo um conjunto de requisitos que deveriam ser preenchidos. Por exemplo, ambos os pais deveriam estar vivos, e não terem imperfeições físicas, especialmente defeitos auditivos ou de fala. Deveriam jamais ter sido escravos ou ocupado funções de trabalho menos nobres. Não poderiam ser eleitas vestais meninas que os pais residissem fora da Itália ou que já houvessem tido três filhos.
"Virgem Vestal velada", por Raffaele MontiOs textos mais antigos indicam que havia a seleção prévia de vinte meninas, já guiada pelo Pontifex Maximus, isto é, o grande sacerdote romano. Submetidas a uma assembléia sacerdotal, a escolha final caí sobre uma única. Essa era tomada pelo Pontifex Maximus, como já sendo propriedade da deusa Vesta.
Uma outra via para que uma menina viesse a se tornar uma Vestal era aquele de ter um pai de origem nobre, o qual, simplesmente, a apresentaria ao próprio sumo pontífice.
Em um livro, o romano Fabius Pictor registrou as palavras ditas pelo Pontifex Maximus, por ocasião da comunicação à menina, da sua sagração como vestal, enquanto abraçava-a:
"Te Amata Capio"... "Tomo-Te, Amata, para ser uma Sacerdotisa Vestal, que se encarregará dos ritos sagrados que são a Lei para uma Sacerdotisa Vestal realizar, representando o Povo Romano, nos mesmos termos que a melhor das Vestais."
O Nome Amata, dito pelo sacerdote, é simplesmente o nome aceito como o da primeira mulher sagrada Virgem Vestal.
Escolhida a menina, era levada ao templo de Vesta, não podendo ser, sem função disto, considerada emancipada nem prejudicada em testamento.
A parti daí, seriam 30 anos no serviço sacerdotal, até, afinal, poder deixar as funções e o próprio templo.
Durante os primeiros dez anos, eram adestradas no serviço, nas atribuições sacerdotais. Nos próximos dez anos, cabia à mesmas a execução das tarefas aprendidas. Suas vestes passariam a ser uma túnica de tecidos cinza e branco, e um grande manto avermelhado, enquanto a cabeça era coberta por um véu. Assemelhava-se esta veste ao traje nupcial, pois estava a vestal simbolicamente casada.
As introdução das regras foi atribuídas a Phintys, uma mulher membro de uma comunidade pitagórica. Estas teriam sido escritas originalmente por Theano, já tida como a filha ou a esposa do próprio filósofos Pitágoras, e uma filha dessa, de nome Myia.
Na verdade, considera-se que, além de não originalmente escritas por qualquer uma dessas, também não teriam sido escritas por qualquer mulher. De fato, elas não passavam de exercícios de retórica e tratamentos compostos por homens, provavelmente de diferentes lugares em momentos distintos. Conforme Thesleff, isso porque falam de elementos mais caros à ideologia masculina de então que à eminentemente feminina. Assim, tratam de pontos como a castidade feminina, tida como a maior virtude feminina, e o elenco dos deveres da esposa, destacando-se a obediência.
Um comentário de um romano do século III aC traça bem a ambiência que gerou as regras das vestais, e que pode nos indicar bem as suas regras:
"Agora algumas pessoas acham que não é apropriado para uma mulher ser uma filósofa, assim como não pode ser um oficial de cavalaria ou um político... Eu concordo que homens podem ser generais, oficiais urbanos em geral ou políticos, e a mulher deve permanecer dentro do lar, e receber bem, e cuidar bem do seu esposo... Se eu acredito que coragem, justiça e inteligência são qualidades que homens e mulheres têm em comum... Coragem e a inteligência são mais apropriadamente qualidades masculinas, em função dos seus corpos e mentes. A castidade é a qualidade mais apropriada da mulher... Uma mulher deve aprender a respeito de castidade e realizar tudo quantitativamente e qualitativamente para atingir essa virtude feminina, acreditando eu existirem cinco qualificações básicas:,
- a santidade do seu leito de casada - a pureza do seu corpo
- a MANNER pela qual ela elege deixar ssua casa
- refutar participar dos cultos sagradoos de Cybele
- Presteza e moderação no sacrifício aoos deuses"
Nos últimos dez anos da vida como sacerdotisas, adentravam as vestais sua fase de mestras, na qual ensinavam as obrigações rituais às novatas que as sucederiam.
Só aí as virgens, encerrando-se o ciclo de 30 anos, estariam livres para casar. Como não poderiam permanecer no templo, sacerdotisas, e dificilmente conseguiam assumir uma vida comum, era corriqueiro mergulharem em estados de depressão diversos, mas sendo tratadas com uma grande reverência pelos romanos. Não raro, permaneciam virgens para o resto das suas vidas.
Entre as honras e privilégios que passavam a galgar, estabelecidos já por Numa, estava uma grande independência em relação ao pai, algo incomum para virgens, mesmo tardias. Além disto, poderiam conduzir negócios sem tutores.
Quando saíam às ruas, eram precedidas por lictores com fasces. Se acontecesse de encontrarem com um criminoso a caminho da execução, sua vida deveria ser poupada. Por outro lado, qualquer um que se atrevesse a passar por baixo da liteira de uma vestal era imediatamente conduzido à morte.
Marcadas por uma disciplina férrea, as vestais, em função de erros mínimos, eram punidas por açoite e retiro em recinto escuro.
Uma virgem que fosse seduzida e descoberta, tinha um destino terrível. Em primeiro lugar, era preparado um pequenino recinto, com a entrada na parte superior. Dispunha de um pequeno leito e um cobertor, além de pão, água, leite etc...
Vestal condenada aguardando execução, por Pietro Saja.A virgem corrompida, ainda no templo, era colocada acorrentada em uma liteira, que era completamente vedada por ripas, até que sua voz ou gritos não fossem mais ouvidos. Assim era conduzida ao fórum. A procissão seguia silenciosa, acompanhada por espectadores que não se atreviam a falar.
Era um dia encarado como terrível, carregando o ambiente de maus presságios.
A procissão seguia até o Portão da Collina. Ali, findo o percurso, aberta a cela ambulante, as correntes eram retiradas da condenada.
A sacerdotisa máxima elevava as mãos aos deuses, tecendo uma oração, pedindo a esses rapidez na conclusão do evento. Era a condenada descida ao pequeno recinto, quando, então, voltavam as costas a ela, a sacerdotisa maior e as demais vestais, afastando-se.
Sacrifício de VestalFechada a entrada, era despejada por sobre a mesma uma grande pilha de terra, que era trabalhada, aplainada. Isso até que nada indicasse a existência daquela câmara com sua prisioneira.
Ali era abandonada para sempre, sepultada viva.
Portanto, falar-se em Vestais é tratar de um lado obrigatoriamente mais introvertido da mulher, de virgindade, de obrigações e pureza psicológica no cumprimento da manutenção dos valores tradicionais, protegendo a chama sagradas. Para Brandão (1986), "Héstia, como Vesta e suas dez Vestais, talvez simbolizem o sacrifício permanente, através do qual uma perpétua inocência serve de exemplo substitutivo ou até mesmo de respaldo às faltas perpétuas dos homens, granjeando-lhes êxito e proteção".
Observa ainda Brandão (1986) que "quanto à significação sexual do fogo, é preciso observar que ela está intimamente ligada à primeira técnica de obtenção do mesmo, pela fricção, pelo atrito, pelo vaivém, imagem do ato sexual, enquanto a espiritualização do fogo estaria ligada à aquisição do mesmo pela percussão. Mircea Eliade chega à mesma conclusão e opina que a obtenção do fogo pelo atrito é tida como o resultado a "progenitura" de uma união sexual, mas acentua, de qualquer forma, o caráter ambivalente do fogo: pode ser tanto de origem divina quanto demoníaca, porque, segundo certas crenças arcaicas, o fogo tem origem nos órgãos genitais das feiticeiras e das bruxas."
Prossegue colocando que "Para Gaston Bachelard o "amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo e antes de ser o mesmo filho da madeira, é filho do homem... O método de fricção surge naturalmente. É natural, porque o homem tem acesso a ele por sua própria natureza. Na verdade, o fogo foi surpreendido em nós, antes de ser arrancado do céu..." (Gaston Bachelard, 1965) Há, consoante o mesmo Bachelard, duas direções ou duas constelações psíquicas na simbologia do fogo, segundo é obtido por percussão ou por atrito. No primeiro caso, está intimamente ligado ao relâmpago e à flecha e possui um valor de purificação e iluminação, convertendo-se no prolongamento ígneo da luz. Diga-se, de caminho, que puro e fogo em sânscrito se designam pela mesma palavra:
agnih, que é, aliás, um empréstimo do hitita Agnin, em latim ignis, fogo. A esse fogo espiritualizante se prendem os ritos de iniciação, o fogo, os fogos de elevação e sublimação, em síntese, todo e qualquer fogo que visa à purificação e à luz. Opõe-se, nesse sentido, ao fogo sexual, obtido por fricção, como a chama purificadora se contrapõe ao centro genital da lareira matriarcal, como a exaltação da luz celeste se distingue do ritual de fecundidade agrária. Assim orientado, o simbolismo do fogo dimensiona a etapa mais importante da intelectualização do cosmo e afasta mais e mais o homem da sua condição animal. Prolongando ainda mais o símbolo nessa mesma direção, o fogo seria um deus vivo e pensante, que nas regiões arianas da Ásia recebeu o nome de Agni e Ator."
Coloca ainda Brandão (1986) que, "em síntese, o fogo que queima e consome é um símbolo de purificação e regeneracão, mas o é igualmente da destruição. Temos aí nova inversão do símbolo. Purificadora e regeneradora a água também o é. Mas o fogo se distingue da água na medida em que ele configura a purificação pela compreensão, até sua forma mais espiritual, pela luz da verdade; a água simboliza a purificação do desejo até sua forma mais sublime, a bondade".
O "Colégio Vestal" foi fechado em 389, por determinação do Imperador Romano Theodósio, já ligado aos ventos de cristanização do Império Romano.
Estamos, neste ponto, com provável compreensão apropriada para entendermos o texto da nossa música.... e foi o ver a mulher que desejava, qual Virgem Vestal que afetou o protagonista. Ele não poderia aceitar o que o destino impunha, e que o sábio em suas cartas via. Não importava a ele mais seus olhos abertos ou fechados, no seu devaneio. Queria-a e não a deixaria partir, permanecer intocada, virgem.
Evoquemos, aqui, a fala de Morgana:
"a Senhora de Nazaré- realmente poderosa, ao seu modo – que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?" Bradley (1982, p.11)
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BIBLIOGRAFIA
BRADLEY, Marion Zimmer. "As Brumas de Avalon". São Paulo (São Paulo): Círculo do Livro S.A.. trad. Waltensir Dutra, (1982) 1988.
BRANDÃO. Junito de Souza. "Mitologia Grega." Petrópolis (Rio de Janeiro): Editora Vozes,1986. CORNEL, Tim; MATTHEWS, John. "Roma – legado de um Império". Madri (Espanha): edições del Prado, trad. Maria Emilia Vidigal, 1982.
LEFKOWITZ, Mary; FANT, Maureen B.. "Women's life in Greece and Rome". sl: sd. PLUTARCO. "Life of Numa Pompilus". sl: sd.
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